



O Encontro com a Alma Gmea

Paulo Kronemberger











 Prlogo:


     Ningum jamais conseguiu escrever sobre Rapa Nui sem usar a palavra mistrio. Na verdade, tudo por l passou mesmo a ser um grande mistrio desde que a descobriram,
quando a insanidade do homem "civilizado" a tocou.
      difcil acreditar que a bordo de pelo menos um daqueles primeiros navios sequer houvesse um homem que pudesse avaliar e tentar minimizar o desastre, o verdadeiro
genocdio que se praticava ao tentar incorpor-la ao resto do mundo.
     Pudessem as guas do Pacfico t-la escondido at hoje...
     No dia da Pscoa de 1722, um holands infortunamente a descobriu, iniciando o processo de destruio de uma das mais formidveis culturas que o planeta jamais
conheceu. Comeou por dar-lhe um nome: Ilha da Pscoa.
     Ele no sabia que fazendo isso interrompia a mais primordial das comunhes que o ser, algum dia, no passado, j tinha conquistado: a do homem com a Natureza
e com o Cosmos.
     Era tudo de que, at aquele infame momento, os habitantes de Rapa Nui(1) precisavam para habitar a ilha mais remota do mundo.
     No pediram que um estranho mudasse o nome de sua terra, que j tinha todos os nomes de que precisava, no pediram roupas, nem armas, nem panelas e nem o que
vem por acrscimo: doenas, violncia, escravido, fome, desequilbrio total.
     L no acharam ouro para roubar, como roubaram dos incas e dos maias. Encontraram, sim, cercando todos os poucos cento e dezoito quilmetros quadrados daquela
ilha, enormes, gigantescas esttuas de pedra. No puderam compreender como "selvagens, brbaros e idlatras" conseguiam construir e transportar para onde bem entendessem
colossos de pedra de mais de cem toneladas. Eles, "civilizados", sequer podiam mov-las. Eram grandes demais para caber em seus navios e por isso derrubaram-nas.
Levaram s as cabeas para seus museus poeirentos.
     Mas havia mulheres bonitas para serem estupradas e homens fortes para serem escravizados.
     E outros barcos trazendo mais "civilizao" foram chegando.
     Um trouxe um leproso e o largou por l. Outro trouxe cabras, outro trouxe cavalos, outro trouxe religio.
     O paraso virou leprosrio. Quem nunca, por milnios, havia precisado de cabras ou de cavalos, agora tinha praga de cabras e de cavalos.
     E era preciso tambm catequiz-lo... Como se no bastasse.
     Quem antes tinha como religio o respeito humano agora precisava comungar num templo que construram, sem ver, sobre um outro templo que j existia h milhes
de anos.
     Trezentos e tantos anos depois, voando a novecentos quilmetros por hora, atravessei o Pacfico a bordo de um Boing que levou cinco horas de Santiago at l.
     Desci as escadas e meus ps tocaram pela primeira vez o solo daquela terra sagrada. Tive que voltar l muitas outras vezes at descobrir ou at revelarem para
mim o grande mistrio de Rapa Nui.
     Desde aquela primeira vez e sempre que piso naquela terra, sinto uma energia, uma fora estranha, uma vibrao boa entrando pelo meu corpo, pela alma.
     Custei a compreend-la. Jamais conseguirei escrever com clareza sobre isso... No existem palavras ou talento suficientes.
     Sei que vou tentar e nas tentativas talvez eu consiga fazer com que algum sinta o mesmo. Se conseguir, ser o comeo do resgate.



     Sempre que eu ia para a costa oeste ver o pr-do-sol, eu passava por uma casa, j nos arredores do povoado, onde reparava num velhinho sentado em um cadeira
no jardim, bem perto do porto da rua.
     Ele sempre estava l. Eu o cumprimentava e ele acenava sorridente.
     Eu ia, ficava alguns dias guiando grupos de visitantes, voltava ao Brasil, ia de novo e o velhinho estava l. Eu passava e ele acenava.
     Um dia, parei para conversar.
     -Papai me disse para eu ficar aqui, para cumprimentar e para tratar bem os visitantes...
     Ele tinha noventa anos.


     Mataram quase tudo em Rapa Nui... Quase tudo.
     Que bom que esconderam, bem escondido, a chave que abre o corao.

Ouo falarem muito gratuitamente sobre
um amor mais amplo, sobre um amor por
tudo e por todos e que seria esse amor
verdadeiro.
Duvido de que algum consiga sequer
chegar perto dele sem antes encontrar
somente uma pessoa, aquela que ir amar,
sobre tudo e sobre todos, por todas as suas
vidas, por toda a sua existncia.

     Conhecimentos csmicos milenares, hoje perdidos no tempo, davam aos homens de civilizaes que nos precederam o rumo para a felicidade.
     E a felicidade sempre foi,  e ser aquele estado de equilbrio, harmonia e paz que cada homem definiu para si prprio como o ideal.
     Assim, poderamos dizer que a felicidade assume conceitos diferentes, proporcionais ao conhecimento,  evoluo e aos valores de cada indivduo.
     O homem traa metas e alcanando os objetivos conclui ter encontrado a felicidade. Como essas metas so determinadas e limitadas ao seu conhecimento, o ser,
na realidade, est feliz, porm, temporariamente.
      exatamente isso o que ocorre com o homem contemporneo e disso decorre seu permanemte estado de tenso. Com seu conhecimento restrito a padres puramente
materiais, est permanentemente exposto ao desgastante processo da "felicidade temporria", j que o sistema sempre providencia novas metas que o indivduo massificado
precisa atingir.
     Sempre ocupado na tentativa de acompanhar esse processo que o escraviza a valores mesquinhos, o homem moderno  mantido longe daquilo que poderia lhe proporcionar
a verdadeira felicidade, um estado de harmonia, de equilbrio e de paz perenes.
     Existem aspectos comuns a todos os seres humanos e desconhecidos da maioria, que descaracterizam os conceitos bsicos daquilo que seres, realmente, a felicidade.
     Tais aspectos, revelados por um conhecimento transcendente, foram destrudos, escondidos ou abandonados pelos mais escusos e diversos motivos.
     Mentes inescrupulosas sempre existiram. Assim, esse processo remonta  aurora da humanidade terrestre.  medida que o Conhecimento Csmico era revelado pelas
Hierarquias Celestes, alguns homens buscavam deter os ensinamentos para si prprios, visando obter poder sobre os de sua espcie. Foi assim que surgiram os chefes
tribais, os pajs, os curandeiros, os sacerdotes, os reis, os faras, os ditadores, os governantes, os gurus etc.
     No  difcil deduzir que, se o Conhecimento chegasse a todos, tais homens seriam plenamente dispensveis.
     Esses, porm, alm de no repassarem os ensinamentos recebidos, encarregaram-se, tambm, de deturp-los, disseminando o caos, invertendo valores e transformando
o homem de hoje em um herdeiro de mil verdades.
     Isso fez com que o homem, cada vez mais distanciado de sua condio de cidado csmico, fosse traando seus ideais de felicidade divorciados das verdades fundamentais.
     Baseado em valores contrrios  sua essncia e totalmente contaminado por ensinamentos e crenas equivocados, o terrestre quase j no consegue reagir para
retomar seu verdadeiro caminho e resgatar sua paz. Emaranhado por erros e falsas afirmaes sobre tudo aquilo que transcende a vida no planeta, desgastado na grande
luta pela sobrevivncia num mundo que se tornou inspito, bombardeado diariamente por vibraes nocivas aos seres humanos, j no mais reage aos constantes chamados
de alguns seres que se dispem a corrigir tal situao.
     Esses seres, especiais que so, buscam resgatar os conhecimentos perdidos e libertar o homem de sua ignorncia, fator determinante de sua infelicidade.
     Os terrestres afastam-se tanto desses seres e tambm entre si prprios desenvolvendo costumes antagnicos, criando conceitos e crenas espirituais conflitantes,
desarmonizando-se com os elementos naturais, que agora um nico fator ainda nos permitiu ter a esperana de que uma catstrofe maior ainda possa ser evitada.  o
fato de que alguns conseguem ainda, por fora de sua evoluo espiritual, lutar para reverter o processo de degradao do homem terrestre. Assim, nascem aqui seres
com a misso csmica especfica de resgate do Conhecimento.
     No so muitos e esto espalhados por toda a Terra, liderando ou participando de tarefas que se identificam por muitos rtulos diferentes, mas que compem um
nico trabalho.
     H uma certa facilidade em identific-los. Padres especficos de comportamento os distinguem da maioria. Apesar de seres "educados", de receberem os mesmos
ensinamentos, de seres condicionados s mesmas necessidades, destoam dos demais, destacando-se dos membros de suas famlias como "ovelhas negras" do rebanho.
     Assim so tachados porque no apresentam resignao ao sistema. So, no mnimo, os "diferentes". Quando insistem, no sucumbindo s presses, so visionrios,
loucos, msticos, rebeldes, sonhadores etc. Se, por acaso, no so suficientemente astutos, irritam os demais e tm o mesmo destino reservado a todos os que se indispem
contra o que est estabelecido. So repudiados pela sociedade ou sumariamente eliminados.
     Esses seres, ao longo dos sculos, nos trazem as informaes que nos abrem para o Conhecimento Csmico e que, conseqentemente, nos libertam. Sua fora est
em seu sentimento. Em seu ntimo guardam outras caractersticas que raramente revelam. Tm lembranas de outras identidades, de outros lugares e at de outra famlia.
      a "gente das estrelas", que cumpre sua misso de resgate dos terrestres para podermos conhecer o tudo e o Todo e assim traar as metas e determinar valores
corretos que nos guiaro  verdadeira felicidade.
     So muitas as lies que nos trazem. Todas revestidas da extrema simplicidade que envolve todo o Universo. Ns, que durante milnios nos encarregamos de destruir,
esconder e alterar essas informaes e que por isso sentimos um grande vazio que permanentemente nos impele a redescobri-las, fazendo com que faamos incurses cegas
ao desconhecido, temos extrema dificuldade em perceber e depois em aceitar essa simplicidade, guiados que somos apenas por suposies, fantasias e elucubraes desastrosas.
     Ns mesmos fabricamos com nossas mentes doentias verdadeiras armadilhas, dogmas que nos impedem de chegar ao caminho da verdade.
     Desenvolvemos um instinto natural de repulsa a tudo o que se apresenta de maneira simples. Supomos que para ser csmico tem que ser milagroso e assim no aceitamos
o milagre da simplicidade.
     Porm, quando percebemos que h algo errado e que precisamos de ajuda, partimos para a nossa busca pessoal, mas quase sempre esperando que o "csmico" manifeste-se
para ns enquadrado em nossos valores, dentro do conceito e da viso que temos dele.
     Quando nos comportamos assim, nos submetemos a muitos perigos. Um deles  o da decepo que pode fazer com que interrompamos nossa busca levados pela descrena.
Outro  que, se nos enveredamos por caminhos totalmente desconhecidos, carregados de crenas equivocadas e conseqentemente sintonizado em freqncias vibratrias
erradas, iremos encontrar mentes que se comprazem, por suas fraquezas e ignorncia, a nos manter afastados do caminho certo.
     Portanto, para iniciar nossa busca pela retomada do verdadeiro conhecimento, precisamos abrir nossas mentes para receber informaes bsicas muito simples,
mas que, a princpio, iro nos parecer fantsticas, j que em sua maioria so o oposto de tudo a que nos foi ensinado, ou melhor, colocado em nossa cabea numa verdadeira
lavagem cerebral que j dura milnios.
     Vamos, ento, adotar um procedimento tambm oposto para encontrar a nossa Verdade. Em vez de partirmos em vo cego ao desconhecido, vamos procur-la por aqui
mesmo. Em vez de implorarmos por milagres, vamos fabricar o nosso prprio milagre.
     Vamos fazer um "curso de magia", partindo em busca da felicidade, estudando pacientemente lio por lio.
     A primeira delas refere-se  retomada da nossa capacidade de anlise; e no vamos analisar as estrelas. Elas so a nossa meta e, portanto, ficam para as ltimas
lies.
     Vamos comear pela anlise da nossa prpria realidade, daquilo que  palpavel e, portanto, fcil, simples.
     Procedendo dessa maneira, iremos corrigindo nossos valores, nos despindo de falsos conceitos, o que nos permitir encontrar o Caminho dos Magos e, ao longo
dele, tudo o que precisamos saber para alcanar a paz.
     Para sermos bem-sucedidos em nossa caminhada  preciso que estejamos munidos de toda a nossa fora, e isso  completamente impossvel de se conseguir sozinho.
     Se observarmos  nossa volta, iremos ter extrema facilidade para constatar que toda a natureza, que toda a criao, se manifesta sob forma dual. A bipolaridade
 a determinante de toda a criao. O positivo e o negativo, ou melhor, o feminino e o masculino so os fatores bsicos, as condicionantes naturais de todo o resto.
     No podemos jamais considerar ou nos considerarmos felizes se contrariamos a regra bsica da criao, o estado de dualidade que determina que o ser completo,
harmnico, equilibrado, conhecedor e seguidor das verdades fundamentais  aquele que busca e consegue encontrar e viver com a sua "contraparte", com a sua alma gmea.
     Sendo esse o princpio fundamental da existncia ou a busca maior do ser, todos os outros so meros componentes daquele estado que chamamos de felicidade.
     O ser s se manifesta plenamente atravz do amor e s consegue tal manifestao quando est completo. E somente  um ser completo quando  estabelecida a sua
dualidade. Junto com a sua outra "metade", o ser est pronto para se manifestar em toda a sua grandeza de expresso mxima da Criao.
     Mas quem  a nossa alma gmea? Onde est? Aqui mesmo ou num outro mundo?  possvel encontr-la aqui ou pelo menos estabelecer um contato com ela? Quando?
     Como tudo o que  transcendental, muito j se especulou sobre isso. Pelo desejo de saber e tambm pela iniciativa escusa de alguns, as informaes tornaram-se
confusas. Sempre foi assim. Com esse e com outros pontos que levam s verdades fundamentais, libertadoras da conscincia humana.
     Entretanto, seres de altas hierarquias, justos, atentos e protetores sempre se manifestam em defesa daqueles que se fazem merecedores de receber as revelaes.
Encarnando entre ns ou falando atravz de "porta-vozes", guiam e inspiram os homens de boa vontade para que o Conhecimento no seja totalmente perdido.
     At h poucos sculos dizimamos povos inteiros que ainda detinham tais conhecimentos. Os povos americanos e polinsios foram os que mais sofreram nas mos de
conquistadores.
     Pouca coisa mudou de l para c. Se o progresso j no permite mais que se queimem pessoas em praas pblicas, essas perecem nas mos de assassinos contratados
ou so engendradas tramas para que sejam desacreditadas e postas como prias da sociedade.
     Portanto, para alcanarmos novamente o Conhecimento  preciso que estejamos de fato seguros de que  isso que desejamos, j que tal escolha sempre nos coloca
"na contramo do mundo".
     "Na contramo do mundo, rumo s estrelas" foi o lema que adotamos para nortear o trabalho que desenvolvemos buscando resgatar conhecimentos perdidos.
     Da mesma maneira que estudiosos dedicam-se s pesquisas cientficas descobrindo ou redescobrindo "novas tecnologias para toda a atividade humana, outros tambm
pesquisam o desconhecido, caminhando  frente da cincia ortodoxa, ferindo interesses e sendo combatidos. Entretanto, no se pode negar que so esses os que so
procurados "quando no h mais remdio".
     E onde iremos buscar os "remdios" a no ser nos beros onde estiveram depositados um dia?
     Essa jornada data de vinte anos, quando foi iniciado um trabalho para tentar contribuir com uma pequenina parcela de participao no resgate do Conhecimento
perdido.
     Na totalidade desse deslumbrante e fantstico aprendizado destacou-se um ponto que se fez brilhar mais do que o Sol, tal a transformao que se operou no ntimo
do meu ser: a grande revelao sobre nossa verdadeira condio de ser dual e o caminho para conhecermos e encontrarmos nossa outra metade, nosso complemento divino,
contraparte, alma gmea, ou como queiram cham-la.
     Na verdade, no se pode resumir tudo o que foi descoberto e aprendido em vinte anos em um s livro. Por isso optamos pela publicao de O Encontro com a Alma
Gmea - Mahina Omotohi (2), colocando o que ansiamos repartir.
     Nesta obra, julgamos ser de nossa obrigao, alm de tratar do tema-ttulo, que consideramos prioritrio, revelar tambm a origem das informaes a serem retransmitidas.
      o que faremos a seguir, convidando-o a nos acompanhar numa grande viagem. Uma viagem que, quando bem-sucedida,  uma viagem sem volta.


A Origem das revelaes


De repente, s para voc perceber o bvio,
 montada uma verdadeira operao interplanetria...

     O comandante do avio sugeriu que olhssemos para baixo para vermos a ilha de Robinson Cruso, que fica bem perto do litoral do Chile.
     Vendo aquele pedacinho de terra rodeado pela imensido do mar, lembrei-me, por um momento, do famoso personagem, e logo minha mente disparou em recordaes,
fazendo-me sentir tambm como um nufrago do Universo, meio sozinho neste pequeno planeta azul, to azul quanto o oceano que atravessvamos em busca do conhecimento.
     Vovamos rumo a ele. Perdida no meio do Pacfico, a cinco horas de vo de Santiago, Rapa Nui, a Ilha da Pscoa, nos esperava com seu encantamento.
     Antes de pousar, o jato da LAN CHILE contornou toda a ilha, dando-nos uma viso antecipada daquele lugar de segredos e revelaes. Estvamos chegando ao "Umbigo
do Mundo" Te Pito o Te Henua, uma das denominaes nativas da Ilha de Pscoa.
     Era a quarta vez que eu visitava aquele lugar levando comigo grupos de estudiosos, pesquisadores e pessoas em busca de mais conhecimento. Mesmo assim, como
sempre foi desde a primeira vez, uma sensao muito grande de paz me invadiu assim que desci do avio.
     No Aeroporto de Mata-Veri uma pequena multido nos esperava. A maioria, donos de hospedarias que vo at l disputar clientes entre os turistas, nica fonte
de renda da ilha.
     Logo encontramos Eduardo Martinez, que tambm tem uma empresa de turismo que inclui uma hospedaria e Kombis para excurses. Usamos seus servios desde nossa
primeira visita  Ilha da Pscoa. Eduardo  gentil, extremamente atencioso com seus hspedes e conhece cada recanto da ilha como ningum, pois j est por l h
mais de trinta anos.
     Enquanto eu e ele recolhamos as bagagens, os componentes do grupo espalharam-se pelo pequeno aeroporto, lotando as lojinhas de lembranas e sempre cercados
pelos pasquenses vidos por conseguir hspedes, ou ento  procura de pacotes enviados costumeiramente por seus parentes que residem no continente atravz dos passageiros
do avio.
     Colocamos as bagagens nos carros e enquanto Eduardo se encarregava da rdua tarefa de juntar todo o grupo encostei-me numa parede, fechei os olhos e deixei
que aquela energia boa, aquela sensao de "estar em casa" tomasse conta de mim. Uma nuvem tapou o Sol e a brisa do Pacfico passou como que levando embora tudo
de bom que eu sentia naquele instante. Por um pequeno lapso de tempo no ouvi mais o burburinho do aeroporto e uma terrvel sensao de solido me invadiu. Abri
os olhos. Uns dois metros  minha frente vi a silhueta de um homem recortada contra o Sol, j prximo do poente. Quando meus olhos acostumaram-se com a luz intensa,
percebi que era um velho nativo que eu j tinha visto inmeras vezes vagando pela ilha. Nunca, que eu me lembrasse, o vi no povoado ou ali no aeroporto.
     -Yorama Kori -Saudou-me na lngua Rapa Nui. Respondi, repetindo a saudao, como  o costume, e ele continuou em espanhol:
     -Da prxima vez, volte aqui na Lua cheia de setembro. Mas, venha sozinho, porque de agora em diante voc no pode mais continuar sozinho.
     Observei-o afastar-se e, antes que eu tentasse ordenar meus pensamentos, Eduardo me chamou.
     Rumamos para a hospedaria situada apenas a uns quinhentos metros do aeroporto. As pessoas do grupo, fazendo comentrios e perguntas, no me permitiram pensar
naquilo que o velho havia dito. Eduardo, como sempre, queria saber da hora em que preferamos tomar banho para s ligar o aquecedor no momento certo e no desperdiar
energia. A eletricidade na Ilha da Pscoa  fornecida por geradores e, quando o consumidor ultrapassa uma determinada quota, o preo aumenta bastante.
     Quase tudo o que consumimos aqui vem de avio, continuou Eduardo, nas suas explicaes sobre a rotina da ilha. Uma vez por ano vem um navio transportando o
material pesado que no pode vir de avio. Um outro navio-tanque traz os combustveis.
     Com essas explicaes o pessoal do grupo compreendeu o porqu de toda aquela gente no aeroporto de Santiago, cercando os passageiros que iam para a ilha, pedindo
que trouxessem pacotes com frutas, roupas e toda a sorte de objetos para seus parentes l residentes.
     Antes que Eduardo me pedisse, entreguei-lhe uma pilha de jornais e revistas que apanhei no avio e outras que comprei em Santiago. Lembro-me at de sua decepo
quando, na primeira viagem  ilha, no apanhei nenhum "peridico" no avio. Depois disso, nunca mais cheguei l sem levar livros, jornais e revistas.
     Eduardo distribuiu os quartos e apresentou sua esposa Luclia, que supervisiona as refeies para os hspedes.
     J eram quase seis horas da tarde e cada um foi tratar de arrumar suas coisas e tomar um banho, sem ainda terem tido tempo de refletir sobre o fato de estarem
num dos lugares mais remotos de todo o mundo.
     Desfiz minha mala e antes de entrar para o chuveiro fui dar uma espiada pela janela. Estava entardecendo na "Terra dos Homens-Pssaros". O colorido do cu em
mais um pr-do-sol formidvel e o barulho das ondas fizeram-me momentaneamente voltar quase vinte anos no tempo, a uma poca em que jamais poderia supor um dia eu
estar ali, bem no meio do Pacfico, levando pessoas para conferirem a possvel presena extraterrena no planeta, estando eu sempre a tentar descobrir segredos do
povo misterioso que habitou aquele lugar no passado...
     ...Foi tudo to repentino, sem aviso... Um turbilho de acontecimentos inusitados que at hoje, ao recordar, sinto-me meio atordoado. para mim, que vivi os
primeiros trinta e trs anos de minha vida sempre voltado para mim mesmo, ser despertado num repente para uma outra realidade foi uma experincia marcante. Por vrias
ocasies temi no suportar as exploses interiores provocadas pelas revelaes. Eram milhares de perguntas que eu queria fazer de uma s vez e s consegui respostas
atravz de um metdico e paciente aprendizado.







     O Contato


Certa vez encontrei sete homens que me
disseram ser o maior poder do Universo.
Disseram-me tambm que acima deles s
estava o poder do sentimento humano.

     Tudo comeou durante uma noite qualquer em 1973. Sempre tive um sono muito profundo e naquela noite estranhei muito ao acordar no meio da madrugada. Acordei
e l estavam eles. Sete homens vestidos com longas capas brancas. Estavam enfileirados na frente da minha cama, todos de costas para mim. To humanos como ns, mas
totalmente indescritveis.
     Sei que jamais conseguirei, com palavras, fazer uma descrio que se aproxime um pouco daqueles homens. Fiquei totalmente paralisado. Sequer podia mexer um
msculo e nem ao menos falar. Eles permaneceram ali por alguns minutos e depois caminharam em direo  parede  sua frente; passaram por ela como se esta no existisse
e sumiram.
     Nos dias que se seguiram, apareceram outras vezes. Dois dias depois da primeira visita, acordei novamente no meio da noite e eles estavam l, dentro do quarto.
Notei que um deles estava perto da cama. Consegui mover o rosto, tentando olhar para ele. Imediatamente ele esticou os braos em minha direo s permitindo que
eu visse uma folha de papel que segurava. Havia algo escrito. Parecia um poema. Comecei a ler e acho que adormeci.
     Na manh seguinte, recordava-me de tudo. Levantei-me e escrevi reproduzindo o que havia lido, sem ter que fazer qualquer esforo para lembrar. Eis o que escrevi
naquele dia:

Muito alm da ltima estrela conhecida,
nos limites permitidos  matria,
est o mundo do primeiro portal.

Ali, eu estou agora.
Eu e outros seis que vieram comigo da parte impenetrvel.

Quando transpomos a "barreira de prata"
trouxemos a espada da justia
e os que conhecem a nossa procedncia
nos chamam de guerreiros, mas somos apenas servos,
servis servidores daquele que em vo procurais conhecer.

 Ele quem nos manda usar a "balana" e determinar quem
devemos levar conosco quando voltamos  sua casa.
Para isso transpomos a "barreira". Para escolher.
Assim, a ns  concedido o grande direito de julgamento,
prprio e restrito aos que vivem na verdade.

No tenteis, pois, de agora em diante,
avaliar procedimentos ou fatos.
Eu vos digo: se no conheces os princpios,
com que direito tentais determinar os fins?

Procurai, antes, proceder de acordo com vossas instrues
cumprindo as ordens dadas para hoje.
Se nisso tendes tanta dificuldade, por que perguntar
ou insistir em saber o que vos ser mandado fazer amanh?

No sejais submissos, porm acatai o que no ofende
o vosso esprito. Tendes essa facilidade.
Eu vos garanto que Ele prprio vos avisar quando
vos desviardes do nosso caminho.

     Surpreendi-me quando percebi que aps terminar de escrever esse poema escrevi mais outros dois com uma facilidade extraordinria. No dia seguinte, escrevi outros
e em menos de um ms j tinha escrito mais de trinta. Deduzi que aqueles sete homens se comunicavam atravz daqueles poemas que eu escrevia entre uma apario e
outra.
     Atravz dos primeiros textos, eles me disseram que eram homens que j tinham toda a evoluo material e espiritual, que j tinham todo o Conhecimento e que
eles, sete, compunham um "Conselho Universal", formado por eles e por mais outros dois, um homem e uma mulher. Acrescentaram que aquele homem e aquela mulher eram
infinitamente superior a eles prprios.
     Tudo isso me desnorteava. Comecei a pensar que estava tendo alucinaes e queria livrar-me de tudo aquilo, mas "Eles" continuaram aparecendo e "falando".
     Eduardo chamou para o jantar, interrompendo minhas incurses ao passado. Sua esposa, Luclia, tinha mandado preparar para a nossa primeira refeio na ilha
lagostas, um prato bastante comum naquelas paragens.

Se a eternidade existir, voc s ganhar se
viver em funo dela.
Se ela no existir, voc jamais ficar sabendo.
Apostar na eternidade  um jogo bom de
se fazer porque voc s fica sabendo do
resultado se tiver ganho.

     Lotamos as duas Kombis com as quais o nosso anfitrio na Ilha da Pscoa executa seus servios de atendimento aos turistas e seguimos em direo ao Rano Raraku(3).
Pelo caminho, naquela primeira sada do grupo, os olhos de todos no bastavam para apreciar tanta beleza. No sabiam se olhavam para as ondas explodindo em tons
de azul e lavando as estranhas esculturas negras formadas pela lava endurecida ou se apreciavam os pssaros ou as flores. Um pouco antes de chegarmos ao vulco,
passamos por uma esttua de pedra, tpica da ilha. O grupo, ao ver o primeiro moai(4) se alvoroou. Queriam parar, tirar fotografias e tive que acalm-lo.
     Logo chegamos ao Rano Raraku, onde em tempos remotos os nativos esculpiam as famosas esttuas. Naquele stio, as enormes e impressionantes esttuas esto por
toda a parte. A maioria semi-enterrada e uma grande quantidade delas ainda presa s paredes da cratera, por terminar, num sinal evidente de que o titnico trabalho
foi interrompido de repente. Entre essas, semi-esculpidas, est o "gigante de pedra", impressionante mesmo ainda deitado na encosta: vinte metros de comprimento
e mais de duzentas toneladas de peso.
     - importante destacar, quando falamos dessa esttua colossal -expliquei ao grupo-, que aparentemente todos os cientistas famosos que j andaram por aqui, tentando
elaborar hipteses sobre o sistema de transporte dessas esttuas (uns  dizendo que as rolavam sobre troncos, outros argumentando com muita convico dizendo que
usavam paus e cordas para construir guindastes), fizeram questo de ignorar essa gigantesca esttua que, por si s, derruba suas teorias, j que na tentativa de
demonstrar o transporte por esses mtodos, no conseguiram convencer ningum nem quando tentaram com esttuas com um dcimo do peso do "gigante".
     Percorrendo toda a "fbrica de moais" que eram construdos tanto pelo lado de fora como pelo lado de dentro da cratera. Este fato  uma outra evidncia clara
de que os pasquenses tinham uma enorme facilidade para transport-las, caso contrrio no construiriam as esttuas pelo lado de dentro da cratera, necessitando subir
toda a encosta e depois descer pelo outro lado, j que tinham a matria-prima -pedras-  vontade no lado de fora.
     Os componentes do grupo perguntram-me evidentemente qual seria o mtodo realmente usado pelos construtores para o transporte daqueles colossos de pedra que
podem ser encontrados espalhados pelos cento e dezoito quilmetros quadrados da ilha, num total de quase setecentas esttuas. Falei-lhes, ento, que dentre as inmeras
lendas que constroem a magia daquele paraso perdido no Pacfico, existe uma que fala do mana, um fantstico poder mental de alguns sacerdotes que lhes possibilitava
transportar as enormes esttuas, levitando-as. Para  os cientistas ortodoxos, um absurdo. Para quem tem a mente livre de preconceitos, a nica explicao vivel
e muito mais aceitvel para todos os que podem ir at l e ver tudo com os prprios olhos.
     Depois de percorrer todo o stio, subimos pela encosta e nos sentamos na parte mais alta da borda da cratera do Rano Raraku. Do alto, as Kombis l embaixo pareciam
carrinhos de brinquedo. A paisagem belssima descansou a todos e a conversa girou em torno do que havamos visto e aprendido naquele primeiro dia, at que algum
mencionou meu "contato", querendo saber qual o mais importante ensinamento que recebi.
     -Na realidade -respondi-, ainda no sei se poderia destacar um entre os muitos que recebi, todos de absoluta importncia. Se, entretanto, eu levar em conta
que logo aps a minha experincia, as respostas que deram s primeiras perguntas que fiz foram as que me convenceram de que valia a pena levar tudo aquilo adiante,
acho que posso considerar como as mais importantes essas primeiras explicaes.
     Lembro-me de que naqueles dias, logo aps os encontros que mudaram radicalmente a minha vida, minha cabea era um rodopio incessante de perguntas e dvidas.
Meu intelecto exigia algo mais concreto. Nas profundas e dolorosas anlises que eu fazia, logo conclu que tudo aquilo envolvia no s esta vida que estou vivendo.
Tudo envolvia uma existncia mais ampla, ou seja, a dita eternidade do ser, e essa eternidade ainda era, para mim, um ponto de grande dvida. Eu pensava: Se os ensinamentos
mais importantes que estou recebendo no tm relao com essa suposta eternidade, ento, primeiro, eu preciso ser convencido disso, pois, do contrrio, nada teria
maior sentido.
     E, num dos encontros seguintes, quando eu j me sentia mais  vontade, argumentei:
     -Ouvimos, desde quando nascemos, em funo de nossa formao religiosa, as pessoas falarem na eternidade da alma e a maioria cresce acreditando nisso sem nunca
questionar, sem formular um pensamento prprio sobre tal assunto. Devo acreditar s porque vocs esto falando?
     Enquanto eu falava ou pensava tudo isso, no sei precisar, parecia que, paralelamente, a resposta j era conhecida por mim.
     -Voc est enganado quando afirma que nada tm como certo -responderam-. Vocs tm uma coisa certa, indiscutvel, inevitvel em suas vidas... a morte. Portanto,
a nica sada para os terrestres  fazer um jogo, apostar s cegas. E esse jogo que lhes propomos  um jogo agradvel de fazer, pois  um jogo certo.

No te preocupes nem pelo cu, nem pelo inferno,
nem se algum dos dois existe.
Nem pela morte, nem se com ela terminas.
Faz da vida um jogo certo,
com trunfo marcado.
Aposta na alma, na eternidade, na tua imortalidade.
Tira do baralho a morte.
Sai da corda bamba da sorte.
Se perderes, jamais ficars sabendo...
 Ters acabado!

     Aqueles homens que se haviam identificado como os "comandantes supremos do Universo" e que sabiam que s a sua apario seria o bastante para me transformar
num fiel seguidor, no me pediram para ter f, nem para simplesmente acreditar nessa ou naquela afirmao por parte deles, como  costume dos profetas, sacerdotes
ou escolhidos. Apenas sugeriram que eu meditasse sobre minha realidade e, alis, na mesma hora em que me falaram sobre a sua identidade, acrescentaram: -Acima de
ns s existe uma coisa: o sentimento humano.
     Assim, esses seres ensinaram-me muitas coisas, sempre mostrando o caminho da reflexo e sutilmente levando as respostas a brotarem de mim mesmo, fazendo com
que eu as sentisse, sem imposies. Fizeram-me sentir com toda a certeza, com a fora do meu corao, que o homem  a expresso mxima da criao e acredito que
esse foi o mais importante ensinamento recebido deles.
     Quando voltamos  hospedaria, ao entardecer, a varanda da casa estava cheia de pasquenses que nos esperavam para oferecer peas de seu artesanato. Compramos,
principalmente, reprodues de moais esculpidas em madeira, que so muito bem-feitas, e acabam sendo presentes muito interessantes.
     Todo o grupo deitou-se bem cedo, com as pernas cansadas pela escalada ao vulco e pelas longas caminhadas, mas muito satisfeitos pela grandiosidade do primeiro
passeio pela Ilha da Pscoa.
     Antes de dormir fui at o jardim e Eduardo estava l. Ele pediu e eu concordei em conversar mais um pouco sobre a minha experincia desde que ele concordasse
em fazer anotaes. Expliquei-lhe que pretendia escrever um livro, aprovitando para faz-lo nos momentos de folga que apareciam durante as viagens. Assim, se ele
fosse anotando alguma coisa, ajudaria minha tarefa. Ele concordou. Foi apanhar lpis e papel e na volta trouxe, tambm, uma garrafa trmica com caf. Alis, com
o caf que a gente sempre leva, porque l s se arranja caf solvel.
     -Aqueles sete homens continuaram a aparecer por muito tempo?
     -No. No por muito tempo. Acho que umas cinco ou seis vezes, durante um ms e s isso. Na terceira noite em que apareceram, notei que s havia seis deles na
frente da cama e que o stimo estava de p bem perto de mim, ao lado da cabeceira. Percebi que se me virasse poderia ver seu rosto. Foi como se esse pensamento tivesse
sido percebido por eles, pois imediatamente senti que no deveria tentar. Era como se ouvisse uma ordem dos outros seis para no olhar. Mesmo assim, consegui me
mover e talvez por um milsimo de segundo pude ver o rosto. Quando o fitei, senti como se a minha cabea explodisse. Era um rosto como os nossos, mas de uma fora
indescritvel. Na noite seguinte, apareceram de novo e essa foi a nica vez em que ouvi a voz daqueles homens. O som produziu o mesmo efeito avassalador de suas
presenas e a mesma sensao de estar "explodindo". Naquele momento, compreendi por que ficavam de costas sem deixar que eu visse seus rostos e tambm por que no
falavam. Seria totalmente insuportvel para qualquer um de ns.
     -Mas o que voc ouviu? -interrompeu Eduardo.
     -Ouvi s uma frase e fico assustado cada vez que me lembro dela, pois, desde que a ouvi, compreendi exatamente o que queria dizer. A frese foi esta: "Eu te
dou este anel", significando que estavam fazendo ou celebrando uma aliana. Hoje, quando sei exatamente quem so aqueles homens, fico muito assustado em pensar que
tenho algum tipo de compromisso com eles e a sensao de no estar fazendo o mximo que me seria possvel sempre me acompanha.
     Continuei escrevendo poemas e textos sem parar e j se tinha passado um ms desde a primeira visita daqueles homens. Escrevia com extrema facilidade ao mesmo
tempo em que sentia que era capaz de ter tal aptido. Para mim era tudo fantstico e inacreditvel. Comecei a pensar mais seguidamente em estar tendo alucinaes
e queria me livrar de tudo aquilo.
     Atravs dos textos disseram-me que viviam em planetas de um sistema solar que era o mais prximo do "Sol Central do Universo". Que esses planetas esto na mesma
dimenso que a nossa e que, portanto, so materiais. E eles prprios possuem corpos materiais, mas que no esto presos aos limites da matria, em funo de sua
prpria evoluo, conhecimento tecnolgico e poder mental, tendo acesso a qualquer plano de existncia. Seus corpos materiais so eternos e, quando querem deslocar-se
com seus corpos atravs do Universo, utilizam-se de naves. Nunca me falaram com detalhes dessas naves. Referiram-se a elas somente uma vez e atravs de um poema:


A mquina perfeita

Da luz, a energia.
Dos giros inversos, o efeito.
Grandioso  o espetculo

A mquina perfeita,
espalhando relmpagos em crculos,
deslizando sem vibrar
no vcuo completo
por ela gerado.

Voando no silncio, invisvel,
at os limites sagrados,
na quinta dimenso,
varando o compacto,
mil vezes na frente da luz,
com o poder da simplicidade.

Bela, segura,
me leva a todas as estrelas,
mostrando meu smbolo,
os sete losangos em cruz,
gravados na estrutura invulnervel.

E sempre mantido o tempo em limite nico,
seja qual for a distncia no espao,
quando correndo na frente do raio,
em linha reta,
mantm o presente na garantia do futuro,
ganhando a fora da vida eterna
ao cruzar o Universo,
com a licena do absoluto,
na complexa, mas perfeita equao
de matria, tempo, espao e velocidade,
que reverte o crculo do tempo
e me d
o domnio do infinito, para sempre!

     As revelaes contidas nesse poema, que descrevem realmente uma "mquina perfeita", com a qual se pode viajar aos confins do Universo, so estupendas. Porm,
no podem ser avaliadas pelos valores de nossa cincia. Alis, sempre achei um verdadeiro desatino, um absurdo, a constante teimosa de alguns pesquisadores que insistem
em medir o fenmeno ufolgico ou fazer conjecturas sobre os chamados "objetos voadores no-identificados", invocando apenas os nossos pobres conhecimentos cientficos.
O simples comportamento dessas "naves" contraria as leis da nossa fsica e tudo o mais. Tentar enquadrar tal assunto em nossa base cientfica  perder tempo.
     Bem, por falar em tempo, argumentei com Eduardo:
     -Acho bom a gente ir dormir. A excurso amanh  at o topo do vulco Rano A-Roi e a caminhada at l  bastante longa.
     Voltei ao quarto e enquanto no adormecia fiquei pensando no velho que encontrara no aeroporto. O que ele teria pretendido dizer com "venha sozinho porque de
agor em diante voc no pode mais continuar sozinho"... No tem sentido... Deve ser maluco... Na Lua cheia de setembro... Estamos em maio... Como  que vou fazer
para poder vir?... Bobagem...

No perca tempo procurando aqueles que
sempre mantiveram uma dvida equilibrada
sobre tudo. Eles j esto l na frente...

     O dia nasceu esplendoroso e todos se levantaram muito bem-dispostos. Tomamos o caf da manh preparado com carinho por Luclia e depois cada um preparou seus
lanches para a excurso ao Rano A-Roi.
     Seguimos em direo ao ponto mais elevado da Ilha da Pscoa que, alis, fica bem perto do principal e mais famoso de seus monumentos arqueolgicos, os Sete
Moais. Como sempre, demoramos o dobro do tempo calculado para chegar l, porque, a todo momento, tnhamos que parar ante o deslumbramento de todos pelo desenrolar
ininterrupto das magnficas paisagens e tambm por causa dos mais gulosos, que no se conformavam em passar pelas goiabeiras, que crescem como mato por toda ilha,
sem parar e fazer uma grande colheita.
     Antes de iniciarmos a subida aos quatrocentos metros de altitude do Rano A-Roi fomos visitar os Sete Moais, e na frente daqueles impressionantes esttuas, as
nicas entre as quase setecentas colocadas de frente para o mar, ouvimos uma detalhada exposio sobre aquele monumento, feita por Eduardo:
     -Este stio tem o nome de Ahu Akivi(5). Diz a lenda que essas sete esttuas foram erguidas em homenagem aos sete filhos do rei Hotu Matua, da Nova Zelndia.
Hotu Matua teria recebido atravs de um sonho uma mensagem de seu deus, Make-Make, que lhe ordenou enviar pelo mar seus sete filhos, que deveriam navega para o Oriente
 procura de uma nova terra para o seu povo. O rei, ento, enviou seus sete filhos e estes navegaram por sessenta dias, encontrando a ilha. Cinco deles regressaram
 Nova Zelndia para avisar que tinham encontrado a nova terra e o rei Hotu Matua embarcou toda a sua gente, desembarcando na Ilha da Pscoa, dividindo-a entre os
chefes tribais.
     Ficamos ali por algum tempo, examinando as esttuas, alguns tirando fotos e comentando sobre a ocorrncia dessa lenda sobre a origem da vida humana na ilha
com a histria da prpria colonizao do planeta na verso extraterrestre.
     J eram dez horas da manh quando seguimos para o Rano A-Roi. Subimos devagar. Parvamos para descansar e apreciar a paisagem que aos poucos se ia ampliando.
Levamos duas horas para chegar ao topo.
     L em cima, depois de andarmos por toda parte, como todos estavam ansiosos para falar sobre extraterrestres, reunimo-nos para mais uma conversa:
     -Para obedecer a uma certa ordem nessa narrao- comentei-, ainda tenho que lhes mostrar e comentar algumas das mensagens recebidas, pois, naquele conjunto
de textos que escrevi, esto instrues bsicas interessantes para quem busca ampliar seus conhecimentos sobre as coisas trancendentais. Vejam este texto, por exemplo:


Eu estranho eu

Estranho eu...
Grita. Pede. Implora. Chora.
Por qu?
Grita por qu?
EU estou to perto...
Pede implorando por qu?
Se NOSSA rota  estudada...
EU estou sempre ddivas antecipando.
Chora por nada por qu?
Se NOSSA rota  planejada...
EU estranho o eu.
Gritando. Orando. Implorando.
EU inabalvel e o eu fraco chorando.
EU, fora e certeza, convivendo com eu fraqueza.
Impactos de energias inversas.
Estranho...
EU com amigos em legies armadas de amor puro
e eu, sozinho, em jornadas no escuro.
Estranho ou implorando e gritando.
Por que gritando?
EU estou to perto... no centro.
Olhe eu! Fique certo! Olhe EU aqui dentro!


     Aqui vemos, sob uma forma alegrica, o conflito que todos ns temos entre o nosso intelecto, o nosso raciocnio programado com valores estritamente terrestres
e materiais e o nosso sentimento ou o nosso esprito, como queiram, consciente de uma realidade maior. Aquele que por qualquer motivo experimenta essa conscincia
de uma outra realidade, quase sempre tem que enfrentar essa desastrosa vacilao na hora de escolher entre o que  csmico e o que  passageiro. Nesse poema, o "EU",
grafado com letras maisculas, representa o esprito forte, inabalvel em suas certezas, e o "eu" em minsculas  a nossa mente entorpecida por condicionamentos
do sistema terrestre, superficial, que quase sempre nos faz vacilar na escolha e que, conseqentemente, nos atrasa na caminhada em busca do Conhecimento.
     Acredito que a meno a essa vacilao foi feita para nos alertar, para nos prevenir de que, antes de tudo, precisamos decidir o que de fato queremos, para
s depois iniciar a jornada da evoluo.
     Neste outro poema que mostro a seguir est traada a direo dessa jornada:


Extremos

Rpido ou lento,
certo ou errado,
anjos e demnios,
santos e impuros,
todos, no total do seu ser, possuem amor.
Que os rpidos de mente ajudem os lentos.
Que os errados alcancem os certos.
Que os demnios sejam os anjos.
Que os impuros sejam os santos.
Que todos sejam o que so.
Que todos alcancem a luz sobre o que querem ser.
Que os homens sejam homens.
Que os demnios sejam demnios.
Se existem anjos que continuem sendo.
Se existem santos, louvados sejam.
Porm, se existem homens humanos,
que o Supremo Ser os proteja,
pois estes nunca sero
anjos, demnios ou santos!

     Aqui torna-se claro que a caminhda em busca da evoluo deve conduzir-nos a um ponto de equilbrio. No podemos continuar nos deixando levar pela superficialidade
de conceitos religiosos, ou, pelo menos, devemos buscar maior profundidade nesses ensinamentos que so, infelizmente, os mais disseminados na Terra. No ser anjo
nem demnio, ser humano. Esta  a seta que nos indica a direo do equilbrio na evoluo.
     Podemos estar convictos de que, caso sejamos sinceros em nossa busca, sempre teremos muita "ajuda extra" e normalmente sempre a maior ajuda vem de ns mesmos.
Nosso esprito, nosso eu, sempre est atento ao que lhe  benfico e ele sempre nos d o sinal.
     Temos que estar convictos de que ns, que estamos conscientes, despertos para essa realidade maior, somos, na Terra, uma minoria e assim vivemos num mundo que
 o oposto de nossa busca. Somos como nufragos numa terra desconhecida e hostil. O que impera aqui  contra ns.
     No, no  fcil, mas as coisas podem ser facilitadas desde que deixemos de ignorar os pontos bsicos que precisamos conhecer bem e nos dispor a enfrentar,
antes de iniciarmos a caminhada em busca do Conhecimento Csmico. Depois, a cada passo,  medida que a nossa mente for armonizando-se com o Cosmos, passaremos a
sentir que estamos na direo certa e, nossos passos se tornaro mais seguros.



Por SETE PORTAIS ters que passar.
Longas caminhadas ters que suportar.
Todas as armas e ddivas irs receber
para tal tentativa empreender.
Procura sempre a Grande Luz  frente.
Manter os olhos abertos sempre tente.
A Luz ir te orientar
para, da direo certa, teu passo fraco no te desviar.
Caminhando no te esqueas da semente plantar
porque os que te seguirem iro dela se alimentar.
Quando sentires teu corpo enfraquecido
pela distncia a vencer oprimido,
chama pelos que te precederem.
Sempre alguns voltaro para te socorrerem.
Se nas pedras do Caminho teu corpo for ferido
Lava-te nas Fontes de gua Pura
e teu sofrimento ser suprimido.
Vislumbrars atalhos...
No te levaro aos Portais, mas a precipcios fatais.
Sem desvios segue em frente com passo forte.
Seno sers atingido pela segunda morte.
Detenha-se somente para levantar aquele que vires cado.
No ser tempo perdido.
Por certo, em algum momento, tambm cairs vencido
e, pelos que ajudastes antes, sers reconhecido.
Nevoeiros descero.
Nessa hora, no procure a trilha no cho.
Tempestades te aoitaro.
Nessa hora, no te curves ao cho.
Feras te perseguiro.
Nessa hora, no te escondas no cho.
Quando os nevoeiros descerem,
quando as tempestades te aoitarem,
quando as feras te perseguirem,
lembra o incio da jornada.
Nenhuma arma te foi negada.
Por isso, nunca poders alegar injustia e parar,
pois nunca encontrars obstculos que no possas superar.

Assim, nessa Primeira Caminhada,
Por SETE PORTAIS ter que passar.
Em cada um, um dos SETE GUARDIES irs conhecer.
e, de cada um, uma Fora e uma Ddiva receber.
Assim, primeiro os SETE irs saudar
e s depois encontrar AQUELE por quem vives a chamar!
     No penltimo dia de permanncia daquele grupo na ilha, programei uma visita  Cidade Sagrada de Orongo.
     Orongo fica no topo do Rano Kao, que  o mais prximo do povoado. Pode-se ir at o topo de carro por um caminho margeado de flores amarelas.
     Em toda a ilha no existe um s rio ou fonte, e a gua da chuva acumulada na cratera do Rano Kao  que abastece a populao.
     Eduardo parou no primeiro ponto que permite uma boa observao do interior da cratera, uma das paisagens mais incrveis que se pode ver no mundo. No interior
da cratera, em funo de um efeito estufa, forma-se um microclima que proporciona o desenvolvimento de vrias plantas e rvores frutferas.
     Seguimos adiante pela borda da cratera at a entrada da Cidade Sagrada de Orongo. Ali  que esto os famosos petrglifos dos "homens-pssaros". Apesar de os
rituais ali praticados no interessarem diretamente aos nossos estudos, ouvimos atentamente as explicaes de Eduardo:
     -Aqui, em Orongo, entre os anos 1600 e 1800, aproximadamente, acontecia anualmente uma competio entre os nativos para eleger o Tangata-Manu (homem pssaro),
que reinava juntamente com o rei, por um ano.
     A competio consistia no seguinte: Cada chefe das tribos da ilha selecionava um homem forte e gil que, competindo com os demais, deveria nadar at uma ilhota
que fica  frente do Rano Kao, chamada Motu Nui, e l apanhava um ovo do pssaro Manutara (gaivota do mar), nadar de volta e entregar o ovo ao chefe da sua tribo.
     Ao vencedor, eleito o Tangata-Manu, eram entregues seis virgens.
     Enquanto Eduardo mostrava os lugares onde se dava cada fase do ritual, comentei com o grupo que, na verdade, essa competio deve ter sido criada pelos mais
sbios, porque os pasquenses naquela poca j tinham o problema da consanginidade provocado pelo extermnio iniciado aps a conquista. Assim, com esse ritual que
selecionava jovens para o acasalamento, buscando preservar e melhorar a raa.
     Esse problema, alis, permanece at hoje, pois os pasquenses atuais so todos parentes entre si e para se casarem buscam parceiros fora da ilha.
     Tangata-Manu, o homem pssaro, hoje um dos smbolos da lha da Pscoa,  representado por ser meio homem, meio pssaro, com genitais masculinos e femininos.
Sua lenda surgiu do deus Make-Make (deus nativo dos pasquenses), que, por sua vez, teria vindo  Terra (ou vindo de outra terra) para trazer o progresso  humanidade.
As lendas de criao so idnticas ao relato bblico e tambm muito parecidas com as de outros povos.
     Nesse costume da competio para se eleger o homem-pssaro  importante notar-se o detalhe de que as seis virgens selecionadas para serem entregues ao vencedor
eram "branqueadas", ou seja, ficavam por vrios dias reclusas, sem apanhar sol, pois os nativos acreditavam que isso melhoraria a raa.
     De onde tirariam a idia de que uma raa branca seria superior?
     No seria para "ficarem mais parecidos com os deuses" como tambm faziam os antigos povos peruanos, muito antes de terem conhecido ou de terem tido qualquer
contato com os conquistadores europeus?
     Quem seriam os "homens brancos" considerados como deuses por todos esses povos? Seriam os mesmos que lhes ensinavam tecnologias que at hoje intrigam os pesquisadores?
     L pelo meio-dia j tnhamos ouvido todas as explicaes sobre Orongo e, como combinamos que o resto do dia seria livre para que cada um fizesse o que bem entendesse,
descemos a encosta do Rano Kao.
     Quando passamos pela hospedaria, alguns resolveram ficar e aproveitar a tarde para descansar e a outra parte do grupo seguir at o povoado para almoar e fazer
compras na parte da tarde.
     Eduardo nos deixou em frente ao prdio dos correios e voltou para casa, combinando ir apanhar-nos l pelas seis da tarde.
     L pelas quatro da tarde, arranjamos uma carona e fomos visitar o pequeno museu arqueolgico da ilha, l encontrando explicaes detalhadas sobre a antiga escrita
Rongo-Rongo, que era grafada em tabuinhas de madeira, e um quadro comparativo da lngua nativa, o Rapa Nui, com outras lnguas, como o egpcio antigo, o grego e
o hindu. E ainda muitas outras explicaes sobre o deus Make-Make e sobre os homens-pssaros. Mas, sem dvida, o mais interessante foi ver o nico exemplar de um
autntico olho de moai, j que todos os outros foram totalmente destrudos durante as guerras tribais que se abateram sobre os pasquenses depois da conquista da
ilha.




     A destruio foi to avassaladora que s foi possvel descobrir-se que as esttuas de pedra tinham olhos graas ao trabalho do arquelogo pasquense Sergio Rapu
Haoa, que encontrou, na rea do Ahu Nau Nau, fragmentos de corais brancos lenticulares e cones de pedra-dome colorida que se encaixavam perfeitamente nas rbitas
vazias dos moais.
     Na hora do jantar houve muita troca de informaes entre o grupo, j que uma parte tinha ido para o povoado e visitado o museu e a outra tinha aproveitado tambm
a tarde para visitar, bem perto da hospedaria, um stio chamado Vinapu, onde muros de pedra lembram de imediato a tcnica usada pelos incas em suas fabulosas construes.
     Fomos todos dormir com a mesma pergunta na cabea: Teriam tido os pasquenses e os incas os mesmos "professores"?


Quando "eles" percebem que voc  um
dos poucos que tm condies de se transformar
num ser humano, tomam todas as providncias.
Fabricam at as coincidncias da quais ir precisar.


     Chegou a vspera de partirmos.  costume, nesse dia, oferecer um jantar especial aos grupos que levvamos para visitar a Ilha da Pscoa.
     Naquela vez, entretanto, alteramos essa programao.
     Pela manh, bem cedo, Eduardo procurou-me dizendo que precisava conversar comigo e sugerir que jantssemos juntos e que, antes do jantar, para que o pessoal
do grupo no ficasse sem um programa para a noite, os levssemos ao Hotel Hanga Roa, o maior da ilha, para assistirem a um show folclrico.
     Assim, depois que todos saram da hospedaria, fui falar novamente com Eduardo para saber o que ele queria conversar comigo.
     Tranqilizou-me, mas deixou o suspense no ar. Fiquei curioso. Porm, resolvi esperar at a noite, porque tinha decidido aproveitar o dia para sair em busca
daquele velho que encontrei no aeroporto e tentar esclarecer o tal mistrio da Lua cheia de setembro, j que, quando eu menos esperava, suas palavras vinham  minha
cabea.
     Eduardo emprestou-me uma das kombis e sa para o interior da ilha. Fui a todos os recantos por onde j o tinha visto nas viagens anteriores e depois de ter
gastado quase todo o combustvel, desisti. Pensei:
     -O melhor  esquecer... Nem o conheo... Afinal, eu nem teria meios para voltar aqui em setembro... Quando trago grupos, a companhia area me d as passagens...
talvez... Se eu pedisse... Bobagem... Esquece...
     No fim da tarde, ouvi do meu quarto o pessoal voltando dos passeios, animado com as compras e com o que viu no povoado.
     Arrumei as minhas coisas, descansei e, quando j eram quase oito da noite, sa para falar com todos sobre a partida na manh seguinte, antes que fossem assistir
ao show.
     Pouco depois que saram, Eduardo me chamou para o jantar.
     Luclia nos preparou um pisco-sour como aperitivo e sentou-se conosco.
     Eduardo logo entrou no assunto:
     -Como voc sabe, eu e Luclia temos trs filhos que esto na universidade, em Santiago. Vamos l sempre que podemos e eles passam as frias de vero aqui.
     -Mas eu sinto saudades e me preocupo -completou Luclia. -Gostaramos de ficar mais tempo com eles l no continente.
     -E, para ficarmos ausentes por alguns meses, precisaramos ter uma pessoa de confiana para cuidar de nossos interesses aqui -explicou Eduardo. -No podemos
deixar a casa fechada por tanto tempo. Apesar de sermos amigos de todos e de termos inmeros parentes, achamos que no basta arranjar algum que, vez por outra,
venha aqui abrir a casa.
     Eduardo hesitou um pouco, olhou para Luclia e concluiu:
     -Bem... como voc sempre demonstrou sua vontade de ficar aqui na ilha por uns tempos, desde a primeira vez em que nos visitou, eu e Luclia pensamos em lhe
propor que venha e que fique aqui em casa enquanto viajamos. Assim, ns e voc teremos a chance de fazer o que desejamos. Ns gostamos muito de voc e gostaramos
que aceitasse.
     Fiquei surpreso com o convite. Na verdade, Eduardo e Luclia no me conheciam o suficiente para tal. Se somssemos os dias em que permaneci na ilha e sempre
guiando grupos, no passariam de vinte e cinco. Mesmo assim, todos esses dias eram gastos com os vizitantes. Ns mesmos nunca tnhamos tempo para conversar e o pouco
que sabiam de mim era bastante superficial. Poder-se-ia dizer que estavam sendo totalmente irresponsveis convidando um estranho para tomar conta de sua casa. Quase
simultaneamente lembrei-me do convite do velho e num relance cogitei de poder haver uma correlao entre o mistrio que havia naquele homem e a coincidncia desse
inusitado convite que me possibilitava estar l na poca marcada por ele. Logo raciocinei sobre o absurdo que estava engendrando. Apenas uma coincidncia, pensei.
     Eduardo notou minha hesitao em responder e acrescentou:
     -Voc poder ficar aqui, escolher um dos quartos e usar tudo da casa. No vamos tirar nada. Poder usar os carros tambm e at ser bom para que a maresia no
acabe por estrag-los. E, se quiser, poder manter a hospedaria funcionando, se desejar atender os turistas que aparecerem...
     Eu no sabia o que responder. O que eles me propunham era a chance que sempre esperei para poder ficar por mais tempo naquele lugar e livre para desenvolver
meus estudos. Eu podia ficar por meses, de graa. Bastava arranjar as passagens e um pouco de dinheiro para meu sustento. E poderia, tambm, estar na ilha na poca
em que o velho citou e descobrir se havia alguma coisa de interessante nisso tambm...
     Tudo parecia se resolver de uma maneira inacreditvel.
     Respirei fundo e perguntei aos dois:
     -E em que poca vocs pretendem viajar para Santiago?
     -Como eu tenho que deixar as coisas acertadas tambm no meu trabalho -respondeu Luclia-, pensamos em viajar l pelo fim de agosto.
     Era o que eu queria ouvir. Estvamos em maio. Para voltar a tempo da Lua cheia de setembro, eu ainda tinha dois meses e meio para resolver meus problemas no
Brasil. Tudo estava se encaixando bem demais para ser apenas uma coincidncia.
     -Vocs querem uma resposta agora, no?
     -Seria bom -explicou duardo. -Amanh voc parte e para ns seria bom saber se voc aceita ou no. Assim poderemos tomar nossas providncias imediatamente.
     -Est bem -respondi. -Eu aceito. Procurarei estar de volta l pelo dia vinte de agosto. Est bem assim pra vocs?
     Eduardo e Luclia se abriram num sorriso e disseram que estava timo. Terminamos nosso jantar brindando nosso acordo.
     Na manh seguinte, todos acordamos bem cedo para pegar o avio que vinha do Taiti e que fazia escala em Pscoa s oito horas. No havia alegria no grupo. Parecia
que todos sentiam ter que deixar aquele lugar fabuloso. Por isso no contei a ningum que em agosto eu estaria de volta e daquela vez para ficar por meses.
     Passei o resto do ms de maio e os meses de junho e julho preparando-me para aquela que seria a viagem mais marcante de toda a minha vida. Entusiasmado com
a idia de poder passar tanto tempo na Ilha da Pscoa e com tantas facilidades, nem me importava mais com o tal encontro com o misterioso velho.
     Acertei meus compromissos, separei tudo o que achava necessrio levar. As passagens consegui com a empresa area em troca de realizar um vdeo sobre a ilha
para usarem como publicidade. A agenda ficou em branco de 15 de agosto em diante, data que marquei para voltar  ilha, rumo a acontecimentos que jamais poderia supor
que pudessem me acontecer.


















A Revelao na Lua Cheia de Setembro


Na sua busca, leve sempre em conta que
os pssaros, que voc admira em vos
majestosos, sempre passam parte de seu
tempo no cho.
Assim, se voc passar toda a sua vida
somente tentando alcanar os que esto
voando, jamais perceber os que esto ao
seu lado, pousados.


     Eu o vi de relance quando o avio ainda estava taxiando lentamente. Ele estava parado numa trilha que d para a estrada do aeroporto. Tive a sensao de que
ele sabia da minha chegada naquele vo... No poderia... S se fosse adivinho...
     Quando desembarquei, no encontrei Eduardo nem Luclia, que tinham ficado de me esperar. Enquanto no chegavam, fui at o porto de entrada do aeroporto. De
l pode-se ver a estrada, pensei. Como para lembrar-me, o velho estava l a uns trezentos metros de distncia, parado no mesmo lugar da trilha transversal  estrada
principal. To logo o vi, ele virou as costas e foi embora sumindo pela trilha. Parecia ter ido l s para me lembrar.
     -Pronto, pronto, c estamos- gritou Eduardo, dando uma gargalhada e me assustando ao encostar sua kombi, quase batendo nas minhas pernas.
     A casa estava do mesmo jeito, apesar de estarem s vsperas de partir por vrios meses. No tiraram nada, bem como me haviam dito. Estava tudo  minha disposio.
     Os dias passaram rpido.
     Eu estava tenso na partida deles para Santiago. Eduardo deu-me um monte de explicaes, entregou-me as chaves e disse-me que o aparelho de TV que deixara sobre
a mesa da sala era para eu colocar no meu quarto.
     -Para distrair-se um pouco, Pablito -disse, repetindo o apelido carinhoso que me deram.
     Atravessaram o ptio ajeitando os colares de conchas com que os pasquenses homenageiam todos os que partem. Quem recebe esses colares sempre volta, dizem.
     Logo o jato sumiu na juno do oceano com o cu, e l estava eu, sozinho, bem no meio do Pacfico, no "Umbigo do Mundo".
     No voltei logo para casa. Dirigi a kombi vagarosamente pelas encostas do Rano Kao. Estacionei perto da cerca que marca a entrada nas terras sagradas de Oromgo
e caminhei at o penhasco.
     A uns cento e cinqenta metros abaixo, as ondas azuis estavam calmas. O vento soprava fraco do Leste. Um bom dia para pescar atum, pensei. E, de fato, logo
comearam a aparecer os barcos de pescadores, bem pequenos, l embaixo, no mar.
     Deitei-me num barranco suave formado pelo teto de uma das casas antigas restauradas pelos arquelogos.
     O horizonte imenso e curvo... "o maior horizonte que voc pode vislumbrar da Terra"... lembrei-me de Eduardo falando aos turistas, repetindo sempre a mesma
frase quando chegava quele lugar.
     Eu estava ali, ainda sem saber que estava prestes a ter os horizontes do meu conhecimento fantasticamente engrandecidos.
     Nos dias que se seguiram eu fui adaptando-me, acostumando-me  rotina da ilha. Descobria, dia a dia, onde comprar isso ou aquilo.
     Minha pronncia do espanhol s vezes criava situaes engraadas. A moa do armazm fez cara estranha quando lhe pedi dois quilos de arroz. Foi apanh-los e
voltou trazendo dois quilos de alho. Percebi que precisava estudar melhor a pronncia de cada palavra, at mesmo daquelas que so "iguais" em Portugus.
     No domingo, quando eu j completava uma semana de "morador" da Ilha da Pscoa, fui assistir  missa da manh, curioso em ouvir o coral que cantava os hinos
na lngua Rapa Nui. Nas viagens anteriores, nunca havia sobrado tempo para isso.
     Javier, irmo de Luclia, apresentou-me ao diretor do coral que, segundo ele, era o mais velho descendente do antigo e ltimo rei de Rapa Nui, Hotu Matua. Esse
ancio e alguns outros formavam um grupo no muito bem-visto pelo ento governo ditatorial do Chile. Reivindicavam a retomada ao direito da terra pelos ilhus, usurpando
por um antigo e deturpado acordo feito por Hotu Matua com o governo. Diziam que o rei teria concordado em dar o direito de soberania do Chile sobre a Ilha da Pscoa,
mas no o direito sobre a propriedade da terra.
     A verdade mesmo  que at aquele ano, 1987, os pasquenses no tinham direito algum sobre sua prpria terra. A ilha era do governo, que lhes dava o direito de
usar cinco por cento dos cento e dezoito quilmetros quadrados da rea total. E, nesses mesmos cinco por cento, onde podiam construir suas casas sem, entretanto,
ter a posse do terreno, ainda estavam as construes pblicas, banco, quartel, hospital, aeroporto, prefeitura, casa do governador etc. etc. Eles queriam a ilha
de volta para repartir a terra entre as vrias famlias que compunham as antigas tribos. Isso era "altamente subversivo".
     Convidaram-me para conversarmos quando demonstrei interesse pelo assunto.
     -Vou busc-lo  noite -disse-me Javier. -No  bom que o vejam andando conosco por a. Voc  estrangeiro e pode estar certo de que os federais esto de olho
em voc. Aqui  fcil de se saber sobre cada passo de cada pessoa.
     Encontrei-me com eles vrias vezes. Relatavam-me coisas incrveis e difceis de acreditar, no s sobre sua atual luta, mas sobre tudo o que os pasquenses tiveram
que enfrentar e suportar por serem um povo conquistado.
     Eu j sabia de alguns desses fatos terrveis atravz dos relatos dos primeiros pesquisadores de Pscoa.
     Certa vez li em um livro de um arquelogo francs sobre o que os marinheiros dos veleiros que aportavam na ilha, entre os sculos XVI e XVIII, faziam com as
moas de Rapa Nui e tive nuseas.
     Ele contava que os marinheiros atraam as moas com presentes, passavam a noite com elas e, na manh seguinte, as atiravam ao mar para que voltassem para a
ilha a nado. Elas, com um dos braos ocupado tentando conservar o que tinham ganho, nadavam com dificuldades. Enquanto isso, os homens do navio exercitavam tiro
ao alvo, atirando nelas.
     Alejo, um do grupo, contou-me de sua adolescncia. Disse-me que o sonho de todos os rapazes de sua poca era escapar dali por causa dos maus-tratos que recebiam
(Alejo era adolescnte em 1930) e tambm para tentar melhor sorte no continente. Relatou-me como fugiu da ilha com outros companheiros:
     -Prendemos couros de porcos por baixo das tbuas do ltimo poro de um navio. Fizemos com elas uma espcie de rede e ficamos ali pendurados debaixo do poro,
com gua quase at a boca, escondidos por quatro dias. S samos quando o navio estava j bem distante da ilha, porque outros, que tinham tentado o mesmo, quando
descobertos foram atirados ao mar para que voltassem a nado. Todos os navios eram muito bem revisados antes de partirem de volta para o continente e os que eram
encontrados tentando fugir sofriam horrores.
     -Mas a gente tinha que tentar -completou outro ancio que tinha participado daquela aventura. -Aqui a gente tinha que trabalhar sem ganhar nada e no havia
nem comida suficiente para todos. No podamos estudar tambm porque no havia nenhuma escola.
     Um outro, para completar, ainda disse-me que at os idos de 1950 eram castigados com aoite quando contrariavam alguma ordem dos comandantes militares da ilha.
     Demostrei a eles minha repdia dizendo que se eu fosse pasquense e que se tivesse passado por tais coisas, hoje eu no permitiria que nenhum estrangeiro desembarcasse
por l.
     Os ancios se entreolharam e sorriram e um deles comentou:
     -...Se voc fosse pasquense?... Quem sabe no ?
     Voltei para casa naquela noite a p, debaixo de um cu que no existe em lugar algum. Caminhar em Pscoa  noite  como estar a bordo de uma nave espacial cruzando
o espao exterior.
     ..."Quem sabe no ?... Quem sabe..."
     Perguntei s estrelas:
     -E vocs? Sabem?
     O terceiro dia da Lua crescente de setembro chegou e eu ainda no tinha conseguido encontrar o velho.
     Certo dia, decidi perguntar a Javier sobre o tal velho e ele brincou comigo:
     -No. No conheo ningum desse jeito que voc descreve. Vai ver que voc andou se encontrando com algum Aku-Aku.
     Segundo as lendas, Aku-Aku so os espritos dos mortos que vagam pela ilha. A brincadeira de Javier no me agradou, e senti arrepios. Mas o que me arrepiou
mais ainda foi quando, dias depois, a vi surgindo do mar, brilhante como prata. Chegara, finalmente, a Lua cheia de setembro.
     S me levantei da beira do penhasco onde me sentei para apreci-la quando ela j estava alta no cu. Nem acendi os faris para voltar para casa. Nunca tinha
visto tal espetculo. As esttuas de pedra pareciam criar vida ao luar. Senti medo, espanto e alegria por estar ali. Era como estar voltando para casa depois de
muito tempo.
     ...Se eu fosse pasquense...
     ...Quem sabe no ...
     Logo as luzes do povoado comearam a borrar o quadro feito pela Lua com as estrelas, os moais e o mar. Acendi os faris para atravessar as ruas. Nos bares,
turistas misturavam-se com os pasquenses entre canes e pisco.
     Levei um susto quando vi o velho parado bem no meio do caminho e por pouco no o atropelei. Ele sorriu como se achasse tudo muito engraado. Seu sorriso franco
descontraiu-me e comecei a rir tambm.
     Ele saiu da frente do carro, deu a volta, entrou e sentou-se ao meu lado.
     -Vamos?
     -Para onde? -perguntei.
     -Eu lhe mostro.
     Dei marcha a r e voltei para a estrada. Ele me indicou para seguir  esquerda. amos para o interior da ilha, conclu.
     Depois de uns trs quilmetros ele quebrou o silncio.
     -Bonito, no? -disse, referindo-se  noite enluarada.
     Acenei com a cabea, concordando, prestando ateno na trilha estreita.
     - por causa da localizao da ilha no planeta -continuou. - mesmo com se estivssemos no umbigo do mundo. E o ar tambm ajuda. A atmosfera aqui  lmpida
e nos permite enxergar tudo bem melhor. Por isso, enxerga-se mais longe, tem-se  um horizonte maior e podem-se ver mais as estrelas.
     Falava como se fosse uma conversa banal para passar o tempo, mas cada frase sua parecia entrar em mim com um significado mais profundo.
     Fomos at o extremo sul da ilha. Pelo menos, foi isso que me pareceu naquela hora. A estradinha terminou, de repente, num rochedo.
     -Chegamos -disse o velho, tirando uma lanterna do bolso do casaco. -Eu conheo bem o lugar, mas voc vai precisar disto -falou, entregando-me a lanterna.
     Segui-o em silncio. Contornamos o rochedo e logo estvamos numa gruta cuja entrada era totalmente escondida por arbustos e pedras. Tochas iluminavam o ambiente.
     -Sente-se -convidou-me, mostrando algumas peles de carneiro espalhadas pelo cho de pedra.
     Num fogo tosco, num canto, colocou mais lenha sobre as brasas e jogou algumas folhas numa chaleira que levou ao fogo.
     -Gosta de ch?
     Fiz que sim com a cabea e procurei olhar em volta, disfarando minha anciedade.
     Em reentrncias da rocha, por toda a gruta estavam esttuas esculpidas em madeira, representando figuras lendrias da ilha. Moais, figuras estilizadas do homem-pssaro,
o ovo do pssaro sagrado e algumas outras que eu ainda no sabia identificar. Instrumentos de esculpir e lascas de madeira num canto sugeriam que eram feitas ali
mesmo.
     - o senhor quem as faz? -perguntei, enquanto ele servia o ch.
     -Meu nome  Manu. Pode me chamar assim. Sim, sou eu quem as fao. Aprendi com os antigos. Pode tomar,  erva-cidreira -disse-me, bebendo um gole de sua xcara
e completando:
     -S no uso aucar, desculpe.
     -...est muito bom assim, obrigado.
     Ele sentou-se perto do fogo e me perguntou:
     -E voc? Como se chama agora?
     -...Desculpe?
     -Qual  o seu nome?
     -Paulo...
     -Pois bem, Paulo -disse-me, colocando mais lenha no fogo. -Agora voc entra numa nova fase do trabalho que precisa fazer. Para isso precisar estar em paz
completa, para que sua mente se abra totalmente. Nos encontraremos quantas vezes for preciso para eu lhe ensinar o que voc deve retransmitir aos que o procurarem.
     -Mas eu nem conheo o senhor... Voc, Manu -corrigi. -Quando tentei ach-lo, perguntei sobre voc e parece que ningum o conhece. Desculpe por eu desconfiar,
mas  que nesses anos todos conheci muita gente fantica e outros tantos cheios de imaginao e fantasias.
     -Voc j aprendeu sobre a pacincia. Se aplic-la agora, ver que vale a pena ouvir o que tenho para lhe dizer. E tenho a certeza de que aqueles que nos guiam
convencero voc a ouvir e a aprender.
     -E o que voc tem para me dizer?
     -Bastante coisa, mas o mais importante  ensinar-lhe como  vital que encontre uma determinada pessoa...
     -Outra?
     -Calma... Venha comigo.
     Levantou-se e acendeu uma tocha no fogo. Dirigiu-se para um lado da caverna e, afastando algumas peles penduradas, deixou aparecer uma pequena entrada na rocha.
     A passagem estreita mal dava para uma pessoa. Andamos uns cinco minutos. De vez em quando Manu parava para me chamar a ateno sobre irregularidades no piso
ou para alguma rocha mais baixa no teto.
     De repente, a passagem se alargou. Entramos numa outra caverna maior do que a primeira. Com a tocha que trazia, Manu acendeu muitas outras presas s paredes.
Prateleiras feitas de lajes e lascas de pedra forravam toda a caverna, do cho ao teto. Mal podia acreditar... Eram centenas de tbuas da antiga e supostamente perdida
escrita Rongo-Rongo.
     Todos os historiadores dizem existir apenas umas vinte e poucas daquelas tbuas espalhadas por museus de todo o mundo e ali estavam sei l quantas, escondidas
debaixo do nariz de todos.
     Manu fincou a tocha que trazia numa fresta do cho. Sentou-se ao lado dela. Abriu os braos mostrando seu tesouro e falou:
     -E ento? No valeu a pena encontrar-se comigo?
     -Como voc conseguiu? Nunca ningum descobriu? Seu conhecimento vem disto?
     -Calma, rapaz, uma coisa de cada vez. Estou lhe mostrando isso porque sei que voc  bastante teimoso e que precisa ser convencido. Mas sei que no ser s
isso que o convencer. Alis, voc nunca mais as ver.
     -Quer dizer que s voc sabe que existem?
     -Eu e uns poucos mais.
     -E eu no posso falar disso?
     -Se quiser, pode. A maioria no acreditar e quem tentar no as encontrar.
     -Mas eu posso voltar aqui, fotograf-las, trazer outras pessoas -disse num desafio.
     -Tente -respondeu o velho, sorrindo.
     -Mas se voc vai me ensinar o que est escrito a seria mais fcil...
     -Seria mais fcil provar? Voc j no entendeu que nesse tipo de aprendizado, no aprendizado da alma, as provas de nada valem para a evoluo do ser? No lhe
falaram sobre o que se assimila pelo sentimento? Nem do valor dele?
     -Desculpe... Voc tem razo -tive que concordar.
     -Eu no vou lhe ensinar nada. Voc  quem vai aprender, a partir de algumas informaes que vou lhe dar. Grande parte do que est escrito aqui voc j sabe
porque j lhe foi dito de outra maneira. E o principal que tenho para contar-lhe  especfico para voc, para a continuidade de seu trabalho e tambm porque  seu
direito.
     -No entendo...
     -Quando alguns se dispem a realizar trabalhos pela humanidade, muitas vezes abrem mo de coisas realmente importantes. Voc abriu mo, por algum tempo, daquilo
que lhe  o mais valioso e agora  hora de t-lo de volta.
     -E aquilo que vou aprender terei de guardar s pra mim?
     -No. O que far com o que receber de volta  critrio seu. Se decidir que deve ensinar a outros poder faz-lo. Na minha opinio, acho que deve faz-lo aos
que lhe pedirem para aprender. No deve impor o que sabe a ningum. Deve lembrar-se sempre de que o que vale  o sentimento, e, assim, os que sentirem que devem
procur-lo o faro. Alis, isso est prestes a acontecer e, como sero muitos, dever estar forte e completo para poder dividir o que sabe.
     O que voc quer dizer com estar completo?
     -Isso  o que voc veio aprender aqui. Amanh comeo a lhe ensinar. Agora voc deve ir.
     Manu levantou-se. Apanhou a tocha e uma pequena lasca de obsidiana do cho e colocou-a em minha mo.
     -Guarde com voc.
     Samos juntos da caverna e ele me acompanhou at o carro.
     -Como o encontro? -perguntei.
     -Eu encontro voc.
     Fiz um grande pedao da trilha de marcha a r at encontrar um lugar onde pudesse manobrar.
     Pensei estar voltando pelo caminho que usei para ir, mas logo passei por uns monumentos situados no lado oposto da ilha, onde eu supunha estar a caverna de
Manu. Fiquei confuso e momentaneamente desnorteado. Afinal, para onde Manu teria me levado? Para o extremo sul ou para o extremo norte da ilha? Certamente encontrou-me
 noite j com o propsito de me confundir  quanto  direo da caverna.
     Cheguei em casa ao amanhecer. Dormi at as dez horas e depois fui preparar meu almoo, querendo acreditar que tivera sonhado tudo aquilo.
     Quando tudo comeou h vinte anos, a todo momento eu procedia daquela mesma maneira, querendo "escapar" do que estava acontecendo.
     Coloquei a mo no bolso procurando um fsforo para acender o fogo e o pequeno pedao de obsidiana que Manu me dera desfez minhas esperenas de apenas ter imaginado
o que acontecera durante a noite.
     Passei o resto do dia pintando para me distrair e  noite sa para jantar fora. Ao voltar, esperava encontrar Manu no meio do caminho a qualquer momento. No
o vi naquela noite e nem no dia seguinte.
     Dois dias depois daquela nossa conversa na caverna, sa pela manh para ir ao correio e encontrei Javier. Convidei-o para tomar uma cerveja e decidi lhe contar
sobre o velho, revelando quase tudo. No falei nada do ltimo encontro, e, ao final, Javier deu a sua opinio:
     -Olhe, eu acho isso claro como gua. Voc encontrar pessoas como essa em qualquer lugar com estas caractersticas. Se for a Machu Picchu ou s Pirmides do
Egito, voc vai encontrar gente assim, fingindo-se de bruxo, disposta a lhe vender segredos milenares por meia dzia de dlares.
     -Ele no me pediu nada.
     -No pediu ainda; pedir, tenha certeza, meu amigo -disse categrico.
     Dei razo a ele para no discutirmos inutilmente e continuamos a tomar nossa cerveja falando de outras coisas. No ousei falar sobre a caverna nem sobre as
tbuas com inscries. Resolvi esperar. E no precisei esperar muito.
     Despedi-me de Javier. Na volta, passei pelo cais dos pescadores para ver se conseguia comprar um pedao de atum. Consegui e segui para casa pensando em preparar
um bom almoo. Atum frito com pur de batatas.
     Quando peguei a estrada j perto do aeroporto, vi Manu a uns duzentos metros  frente. Apressei o passo e o alcancei quase na entrada de casa.
     -Yorana kori -saudou-me.
     -Yorana... -respondi meio cansado pela caminhada apressada. -Voc sumiu -comentei.
     -Pronto, j apareci! -respondeu Manu, brincando.
     -Vamos almoar? -convidei, mostrando o pacote de atum e Manu acompanhou-me, sorrindo.
     Coloquei as batatas na panela de presso enquanto Manu cortava o atum em fatias finas. As batatas cozinharam em cinco minutos e pedi a Manu que fritasse o peixe
enquanto eu as amassava para fazer o pur.
     Manu mastigou o primeiro pedao de atum, bebeu um gole do vinho branco gelado e aprovou tudo, balanando a cabea. Lembrei-me do que Javier tinha falado.
     -O que voc faz para sobreviver, Manu? -perguntei, enquanto reparava como comia. Era polido demais para um velho nativo que mora numa gruta de pedra.
     -Voc viu as estatuetas de madeira l na caverna. Tenho um amigo que as vende para mim.
     -Isso d para viver?
     -Se voc reparar bem  sua volta enquanto estiver aqui, notar que, se quiser, poder viver aqui sem um centavo.
     -Isso  meio difcil -contestei.
     -O proprietrio da gruta -continuou Manu apontando para cima -no me cobra aluguel. Frutas, voc as encontra por a. Se quiser comer lagosta  s ir para a
beira d`gua  noite com uma lanterna e apanh-las com a mo. No preciso mais do que isso.
     -...... -respondi e acabei de almoar em silncio. Aquele velho me desconcertava.
     -Quero lhe mostrar umas coisas -disse Manu, levantando-se.
     Segui Manu e, to logo samos para a estrada, ele a deixou, enveredando-se pela campina.
     -Veja -disse, apontando para as goiabeiras carregadas. Depois parou adiante de alguns arbustos. Colheu algumas vagens e me mostrou os feijes.
     -So deliciosos -comentou. Mais para a frente abaixou-se perto de ramagens bem verdes, cavou, mostrou-me batatas-doces e disse, em seguida:
     -Goiabas, feijes, batatas... Eu no preciso dos seus dlares.
     Ele foi direto ao ponto. Energtico, mas sem parecer estar zangado.
     Eu o segui envergonhado. Andei quilmetros atrs dele como um cachorro atrs de seu dono. No trocamos nem mais uma palavra at que ele se sentou no alto de
uma colina. Sentei-me a seu lado. Ele sorriu, colocou a mo sobre meu joelho e apontou para o povoado que se podia ver dali do alto.
     - uma questo de escolha. Os que vivem l ocupam seus dias em busca de recursos para poderem comprar muita coisa que julgam precisar alm de goiabas, feijes
e batatas.
     -Esto errados? -perguntei.
     -Errados? No. Podem estar iludidos ou equivocados se por acaso se deixem escravizar por aqueles valores.
     -Mas o mundo  assim.
     - assim, agora. J foi diferente. Existiam valores mais nobres numa poca em que o terrestre no estava separado do Cosmos.
     -Certamente uma poca bem remota.
     - verdade. Mais isso no impede que alguns busquem resgatar o conhecimento que lhes dava aquela condio.
     -Mas por que isso deve ser feito? Parecem felizes como esto.
     -Por caridade, talvez. Porque sabemos que podem alcanar uma felicidade duradoura. Por amor.
     -E esse conhecimento do qual voc fala? Est todo naquelas tabuinhas?  sobre isso que devo aprender?
     -No. Ali est parte dele. E muita coisa voc j sabe. Minha tarefa  lhe revelar um tpico desse conhecimento.
     -Qual?
     -Suponha que voc tenha um caminho a percorrer e que ao longo desse caminho voc tenha que cruzar alguns marcos e que em cada um deles voc receba um ferramenta
que lhe propiciar facilidades para continuar adiante.
     Manu apanhou uma varinha e continuou, traando uma linha reta no cho.
     -Este -disse - o nosso caminho, vamos cham-lo de Caminho dos Magos. Aqui -falou apontando para o comeo da linha - o incio e ao longo dele voc encontra
Sete Portais -continuou traando sete linhas transversais sobre a reta. -Em cada um desses Portais voc alcana uma das Sete Virtudes Divinas. Primeiro o Amor, depois
a Fora, depois a Sabedoria, a Pureza, a Verdade, depois o Perdo e, por fim, a Transmutao, a Nova Vida. A mim cabe lev-lo novamente ao Primeiro Portal para que
voc reconhea o Amor e possa, assim, guiar os outros at ele.
     -No compreendo por que voc diz que vai me guiar novamente para que eu o reconhea?
     -Voc, ou melhor, sua essncia, j trilhou o Caminho e, como todos que o fazem, j adquiriu tais virtudes. Entretanto, sua essncia, seu esprito ficou mais
identificado somente com uma dessas virtudes.  como se voc fizesse um curso e depois se especializasse apenas em uma das matrias que estudou durante o curso,
compreende?
     -Sim.
     -Pois  isso. Alguns esto ligados ao Amor, outros  Pureza, outros  Sabedoria e assim por diante. Isso  o que caracteriza os espritos como se os juntasse
em grandes famlias, ou falanges espirituais ou como queira chamar. O mundo dos espritos  um mundo de energias e vibraes. Assim, para cada uma dessas linhas
ou falanges espirituais, para cada raio vibracional, para cada uma dessas virtudes, h uma vibrao, uma determinada freqncia, uma cor, um som, uma relao com
este ou aquele astro etc.
     Em seus estudos voc j viu que algumas pessoas usam as energias e as vibraes das cores para curar, no? O verde serve para tratar disso, o amarelo daquilo
etc. So sete raios de vibraes. Para cada uma dessas vibraes ou raios, para cada uma dessas virtudes, temos um guardio, um ser que o representa, que personaliza
uma dessas virtudes. Esses guardies, mestres, ou como queira cham-los, so reconhecidos na Terra por vrios nomes, segundo as correntes religiosas ou filosficas
que os mencionam. Os nomes variam porque esses seres ou aqueles por eles enviados tambm variam suas formas de manifestao adaptando-se s circunstncias de cada
contato que fazem. Compreende?
     -...Mais ou menos.
     -Por exemplo: suponha que um ser ligado a um determinado raio vibracional decida se comunicar para transmitir um ensinamento, uma mensagem a uma pessoa que
seja catlica. De acordo com o grau de influncia dessa religio sobre aquela pessoa escolhida para a comunicao, ele decidir como ir se identificar para aquela
pessoa. Se ele concluir que ser mais bem recebido, mais bem aceito se se identificar como um santo venerado por aquela religio, assim ele o far, sem dvida.
     -Compreendi. Mas, eu gostaria, ento, que voc me explicasse sobre a real identidade deles. Voc disse que eles se manifestam de vrias maneiras, adaptando-se
ao caos que existe aqui com relao  variedade de crenas e costumes. Mas, na realidade, quem so? So espritos, anjos ou o qu?
     -No lhe falei sobre a simplicidade do Universo? Pois, ento? Eles so apenas pessoas como ns, com mais tecnologia, conhecedores de outra cincia, mais evoludos,
mas homens como ns.
     -Exatamente como ns?
     -H uma diferena...
     -Qual?
     -Eles so humanos.
     Acho que Manu falou disso apenas para lembrar-me dessa afirmao que eu j tinha ouvido h tantos anos. Quando eu no me conformava em no poder descrever aqueles
sete seres que vi, apesar de serem fisicamente iguais a ns, eles me disseram que eu no o conseguia justamente por isso, porque eles eram humanos.
     -Seres que atingiram aquilo que a Criao imaginou para o homem. Consegue conceber isso? -continuou Manu, como se quisesse completar meu pensamento.
     -Acho que as pessoas jamais aceitaro que seus santos, mestres ou guias so apenas seres humanos que atingiram tal estgio -comentei.
     -Os que trilham o caminho certo sem se desviarem por atalhos conseguem. Mas esse  um comentrio a ser feito a caminho de outro portal. Eu lhe falava de nomes...
Ns precisamos de nomes para nossas meditaes, para nossas invocaes. As pessoas lhe perguntaro sobre nomes e eu lhe sugiro que use ento os nomes usados pela
Teosofia. Por exemplo, para a virtude da Fora, o guardio  o Mestre El Morya; para a Sabedoria, o Mestre Kuthumi; para a Pureza, o Mestre Serapis Bey; para a Verdade,
o Mestre Hilarion; para o Perdo, o Mestre Jesus; e para a Transmutao, o Mestre Saint-Germain.
     -E o Guardio do Amor? Voc no falou nele...
     -Lembre-se de que eu lhe disse que estamos caminhando em direo a ele. Rumamos, com nossa reflexes, em direo ao Primeiro Portal. Com nossa meditao sobre
o que estamos aprendendo, alm de percorrermos um caminho fsico em direo ao que simboliza esse Portal na Terra, mentalizamos tambm estar percorrendo um caminho
imaginrio. Aproveite, ento, a sua mente, deixe seu sentimento fluir, imagine o Portal e o Guardio do Amor. No importa como isso ir se desenhar em sua mente.
Solte seu sentimento e procure ver. Vamos fazer um intervalo sobre o que conversvamos e mentalizar... o caminho... o Portal...
     Fechei os olhos enquanto Manu induzia minha mentalizao.
     Imaginei-me caminhando, mas no conseguia sentir detalhes do caminho imaginrio que percorria. No sabia se era longo, se era fcil ou penoso. Sentia apenas
que caminhava. Adiante havia algo como um marco... Uma pedra... Aproximei-me... Senti duas presenas... Um homem e uma mulher...
     -Um homem e uma mulher... No vi guardio algum, Manu. Apenas um homem e uma mulher.
     Abri os olhos. Manu estava sorrindo.
     -Bom, muito bom -comentou, concordando.
     -Mas voc disse que em cada Portal havia um guardio... Como...?
     -Calma, preste ateno. Eu lhe disse que no ia lhe ensinar tudo. Falei que ia retransmitir informaes. E no basta que voc as aceite. Se fizer s isso, de
nada adiantar.  preciso que estude, que examine, que analise, que reflita sobre cada informao que recebe e que tire concluses. Considere que cada informao
 uma chave para abrir uma porta. Muitas informaes, vrias chaves para muitas portas. Se voc receber essas informaes da mesma maneira como se estivesse lendo
um livro para passar o tempo, elas de nada lhe valero. Se assim fizer, apenas ter um momento interessante e o momento passar, se perder. Veja nas informaes
que recebe um livro em que estuda, um livro que lhe apresenta exerccios sobre os quais voc precisa refletir, reler, intuir, deduzir, resolver, descobrir. E no
tenha medo da sua intuio. Aprenda a ouvi-la. Ela  a voz interior, a voz do esprito adormecido. Muitas informaes que recebemos so chaves para despert-lo.
Uma informao precipita outras, fruto do conhecimento que ele j tem. Quando isso acontece, basta a ele mandar ao consciente essas outras informaes complementares.
 a intuio.
     -Tenho medo de me deixar guiar pela imaginao -comentei.
     -Treine, ento. Seja o seu prprio juiz. Treine a auto-anlise. Fiscalize, medindo tudo com o seu sentimento. Mas no vamos nos desviar do assunto. Depois lhe
falarei sobre essa anlise. Agora vamos voltar ao assunto dos guardies.
     Manu deve ter reparado na minha cara de cansado. Deu uns tapas no meu joelho e sorriu como que para me animar. Eu me esforava por ordenar meus pensamentos
e ele continuou:
     -Deixe... Deixe... No pense em mais nada agora. Relaxe. Volte para casa. Tome um banho e descanse. Amanh, eu o espero aqui e a gente continua.
     Fiz o que ele sugeriu. Na manh seguinte, bem cedo, encontrei-o no mesmo lugar. Se ele no estivesse com outra roupa eu poderia jurar que tinha passado a noite
ali.
     Sentei-me na grama  sua frente e ele me ofereceu algumas frutas.
     -Descansou?
     Fiz que sim com a cabea e comentei:
     -S no consegui descobrir por que vi ou senti, sei l, um homem e uma mulher no Portal...
     -Pelo jeito voc no descansou muito...
     -...... Mais ou menos...  meio difcil a gente parar de pensar...
     -... Eu sei. Sabe? Certa vez me contaram uma histria de um rapaz que foi para a ndia para instruir-se num mosteiro daqueles. Dizem que no primeiro dia em
que ele esteve no mosteiro, quando foi pedir para que o admitissem, um dos monges advertiu-o de que para ser admitido ele teria que passar por uma prova e disse
ao candidato a discpulo: "Agora v pra casa e volte amanh. Porm, durante o tempo em que estiver fora daqui no pense em elefantes." No dia seguinte, o discpulo
chegou implorando por ajuda: "Mestre, pelo amor de Deus, faa com que eu pare de pensar em elefantes. No agento mais."
     Compreendi que Manu estava me comparando ao discpulo dessa histria e tentei justificar:
     -No  bem assim...
     -Claro que sim. Voc manteve o pensamento fixo no casal que viu no Portal. No procurou raciocinar sobre o fato. Se o fizesse, j saberia o porqu. J no lhe
tinha falado sobre a dualidade dos seres? Sobre o fato de s se completarem quando juntos de suas almas gmeas? E ento? Por que voc no deduziu que um ser com
toda a evoluo, com todo o Conhecimento, um dos Sete Guardies, que por ser to evoludo  a representao viva de uma Virtude Divina e a personifica, poderia ser
um homem sozinho ou estar sozinho?
     -Quer dizer que...?
     - isso mesmo.
     -Mas, e os outros? Voc citou para cada Portal apenas um nome...
     -Eu lhe sugeri que usasse nomes conhecidos na linha teosfica e que tm boas vibraes. E a Teosofia bem como outras correntes msticas ou filosficas s citam
um nome. A parte feminina sempre foi, infelizmente, esquecida. Mas, repare: esse  um detalhe que  um verdadeiro filo de informaes. Note que mesmo na Teosofia,
que cita e venera nomes masculinos dos Mestres, atribuindo a cada um deles tambm um Raio ou a Chama Rosa, cita dois seres: Paulo, o Veneziano, e a Mestra Rowena.
Isso sugere que nem todo o Conhecimento foi perdido ou deturpado. Poderamos supor at que para trabalhar com esse raio especfico seria impossvel no citar a parte
feminina, ou seja, seria imprescindvel citar o ser completo.
     -Ento, quando eu vi os dois eu no estava imaginando?
     -Claro que no.  bom que isso lhe sirva de lio e que o incentive a deixar fluir melhor seu sentimento.
     -Deduzo ento que para cada um desses seres masculinos h um outro, seu complemento feminino?
     -Exatamente.
     -E os nomes?
     -Para usarmos os nomes dos respectivos seres femininos teramos que invent-los, contudo, isso no vem ao caso. Os nomes s servem para os identificarmos quando
os mencionamos ou os mentalizamos. Seriam muito teis se pudssemos conhecer os nomes ou sons verdadeiros que os identificam. Nesse caso, funcionariam como mantras
poderosos...
     -Por que os nomes femininos so desconhecidos ou no foram citados em contatos? Se existem nomes masculinos que podemos usar, por que no existem os outros?
     -Poderamos dizer que existem dois motivos principais: o primeiro  aquele causado pelo esquecimento, pela deturpao ou mesmo pela destruio do Conhecimento
Csmico. Os antigos cultuavam a Grande Me, o Supremo Poder Feminino, criador, gerador de tudo. At h bem pouco tempo os magos da Idade Mdia, por exemplo, detinham
esse conhecimento. Isso foi sendo abafado aos poucos. O culto da Deusa e dos outros grandes seres femininos foi sendo abandonado, substitudo pelo culto ao Deus
Pai, ao Deus Patriarcal. Os cultos antigos ligados  Deusa, ligados  fertilidade,  beleza,  beleza,  pureza,  criao foram rotulados de cultos brbaros e primitivos,
e banidos. Isso gerou muitas deturpaes, at mesmo esta de ser quase impossvel para ns, hoje, imaginarmos esses seres mais evoludos, em quem depositamos nossas
esperanas de renascimento, acompanhados de suas respectivas partes femininas, ou melhor, de suas companheiras. Imagine voc falar para um religioso de mente fechada
que o Arcanjo Gabriel tem uma mulher. Ou ento falar: "Se a Me quiser", em vez de "se Deus quiser".
     -Isso seria algo como o Aspecto Divino de Maria, estudado pelos telogos?
     -Certo. A importncia dada pelos catlicos, por exemplo,  Virgem Maria, nada mais  do que o resqucio de um conhecimento que no foi apagado totalmente em
funo de ser, no fundo, a Verdade.
     -Lembro-me de que certa vez perguntei queles seres que contatei sobre o fato de mencionarem sempre o Cristo e Jesus e nunca falarem de Maria. Eles me disseram
que sobre esse ser no ousavam falar...
     -Por isso  que repito quo importante  voc refletir sobre cada frase, sobre cada informao que recebe. Com essa informao, voc j poderia ter deduzido
a muito tempo sobre a grandiosidade indescritvel da parte feminina. Veja as informaes como peas de um grande quebra-cabeas que pode ser montado vagarosamente.
Junte essa informao com aquela outra em que os seres lhe disseram que compunham um Grande Conselho Universal, composto por eles sete e por mais dois, um homem
e uma mulher. Por que no disseram que eram oito homens e uma mulher?
     -Disseram que eram sete mais dois, mas que no eram nove. Afirmaram que no podiam ser citados como sendo nove porque aqueles outros dois, o casal, eram infinitamente
superiores a eles...
     -Nessa ocasio j estavam, sutilmente, fornecendo informaes preciosas a voc sobre a extrema importncia do ser unido  sua outra parte. Mas voc no refletiu
sobre isso. Bem, no faz mal. Tudo vem a seu tempo e sua hora. O importante  que voc absorva essas informaes. Elas lhe sero teis agora e sempre. Depois, 
medida que for caminhando em direo aos outros Portais, elas lhe sero teis, at mesmo para a reformulao do conceito sobre a Divindade e a Criao.
     -Quer dizer que at nisso estamos sendo enganados?
     -O Conhecimento verdadeiro liberta. Quem quer que as pessoas sejam livres?
     -Acho que essa  a finalidade maior do que tenho aprendido e do que voc est me ensinando...
     -Tentamos auxiliar a pessoas a mudar seus valores, a se libertarem e a serem livres.
     -Isso  possvel?
     -Para alguns ser. Com o que aprenderem, corrigindo suas informaes bsicas da espiritualidade, ou melhor, do que  o Universo em sua totalidade, usando um
pouco da cincia oculta para facilitar suas ligaes, seus contatos com seres que os podem ajudar na caminhada, podero aprimorar seus conhecimentos e atingir a
paz.
     -Antes que voc continue, Manu, gostaria que esclarecesse um detalhe que ainda no compreendo. No vejo muita justificativa para o fato de eu precisar ter vindo
para c para aprender essas coisas. Se voc confirma que o que fiz at agora foi verdadeiro porque decorreu de um contato real e se tudo o que fiz foi tambm apenas
retransmitir o que aprendi atravs dele, por que essas novas instrues no poderiam ser dadas da mesma maneira?
     -Existem pessoas que esto extremamente ligadas s vibraes de determinados lugares do planeta. Por laos de encarnaes anteriores ou por determinantes da
misso que porventura estejam cumprindo. Alm disso, da mesma maneira que algumas pessoas so ou se tornam depositrias de conhecimentos, os antigos tambm depositaram
em alguns lugares facilidades para que outros pudessem, como eles, estabelecer contato com algumas frequncias de energia. Por isso  que lugares como os templos
maias, incas e aqui na Ilha da Pscoa e muitos outros so especiais para essas prticas. E no s lugares, mas alguns objetos se tornaram "depositrios" de energias
e vibraes especficas que facilitam o acesso a determinados conhecimentos ou para dotar aqueles que os utilizam corretamente de certos dons ou ainda simplesmente
para facilitar objetivos.
     -Nesse caso...
     -Nesse caso -continuou Manu -, voc est aqui porque neste lugar est um "depositrio" que lhe dar melhores condies de atingir e de receber o que lhe est
reservado. Isso ainda aliado a uma circunstncia astrolgica propcia que completa a facilidade maior para se atingir o objetivo.
     -Isso  magia...
     -Magia  tudo o que ainda no  compreendido pela cincia terrestre.  a utilizao de uma cincia oculta, desconhecida da maioria. Quando, por exemplo, numa
festa de aniversrio, voc coloca velas sobre um bolo, as acende, e, ao apag-las, voc faz mentalmente um pedido, acreditando que ser atendido, voc est praticando
magia, porque, num determinado dia, utilizando um objeto de ritual, no caso as velas, voc, na verdade, para mentalizar e fazer um pedido est manipulando vibraes
e energias que desconhece e tentando com isso atingir um objetivo comandado por sua mente. O mesmo acontece quando voc faz uma orao dirigindo sua palavra para
um suposto ser superior, supondo que com aquelas palavras verbalizadas ou mentalizadas voc se faz ouvir.
     -S que as pessoas no vem a magia dessa maneira...
     -A  que entra uma espcie de hipocrisia inconsciente. Um cientista que critica um sensitivo que diz receber informaes vindas de fora da Terra, tachando-o,
no mnimo, de charlato, dizendo que para se conseguir isso a cincia necessita de poderosos e sofisticados transmissores que ainda no esto aperfeioados, vai
normalmente a um templo e reza acreditando que ele pode, com sua mente, transmitir uma mensagem para o cu ou sabe-se l para onde. Ele, cientista, considera absurdo
admitir sequer a possibilidade de um indivduo ser dotado de um dom que possibilitasse esse contato. Entretanto, ao rezar, ele tenta a mesma coisa. A diferena 
que, para ele, rezar  costume e desenvolver uma faculdade extra-sensorial, no.
     Assim, o que se pode notar claramente  que no existe o respeito humano e fica evidente, tambm nesse particular, como se instaurou o processo de imposio
de padres de comportamento. Imposio essa sustentada por falsas verdades criadas com esse propsito. Com base no conceito deturpado sobre o que  bom ou o que
 ruim, sobre o bem e sobre o mal, ficou fcil exercer um controle sobre as pessoas afastando-as de determinadas prticas que s poderiam benefici-las. Hoje voc
fala em magia e a primeira reao do leigo  que isso  algo malfico.
     Procure deixar claro para as pessoas que mgico  tudo o que se faz, tudo o que se estuda e se pesquisa alm dos limites da cincia, mas que  tambm tudo o
que vai alm dos valores mesquinhos do homem.
     Mgico  trabalhar com o invisvel. Mgico, hoje,  ter respeito humano.  receber a Mensagem do Cosmos,  usar a cor e o cristal para curar e  ver o destino
nos astros.  saber cuidar do corpo, da mente e do esprito,  montar um ritual para a vida, conhecer o oculto, harmonizar-se com os anjos e com as fadas,  ser
gente das estrelas amando a Terra.  amar a todos e ser amado por todos. Isso  a magia do ser.
     E todos podem ser magos, mas nunca ser mago o desequilibrado e nem o que cultiva o desamor.
     No  mago o empresrio que tem escravos em vez de colaboradores. No  mago o governante corrupto, nem o racista, nem o que destri a natureza, nem o reprter
que d palpite sobre o que no conhece, nem o mdico que busca a riqueza pela medicina.
     Mago  o cientista de mente aberta, o jornalista que apenas informa. Mago  o pacfico e o que  justo.
     Mgico  curar com os cristais, com as cores, com as plantas, com as flores ou s com as mos.  trabalhar com terapias alternativas.
      ter um contato com o Cosmos, manter esse contato e saber fazer outros entrarem em contato.
     Mago  o pesquisador que persegue a cura da doena.
     Mago  o que consegue ver a sua prpria realidade antes de buscar descobrir os segredos da realidade das estrelas.
     Mgico  viver pela eternidade, mas conseguir receber aqui mesmo os tesouros que as traas no comem.
     Mgico  encontrar a alma gmea e viver o amor eterno.
     Magia  profetizar o apocalipse como a revelao de cada um.
      a coragem de ser pioneiro, sonhar e trabalhar pela utopia da Nova Era.
     Mgico  descobrir, compreender e aceitar que Deus  um homem e uma mulher.
     Mgica  a iniciao.
      deixar de ser alienado e descobrir que bem e mal no existem.
      ter coragem de se olhar no espelho.
     Mgico  o mistrio dos OVNIs e os segredos dos maias.
     Mgico  o dinheiro honesto.
      lembrar-se de comprar dois pes em vez de um.
     Mgico  proteger a criana.
      no ter medo de quebrar as algemas.
      o saber.  a luz do conhecimento.
      o bom livro, a msica e o incenso.
     Mgicas so as artes.
     Mgico  ajudar.
     Ser mago no  s fazer de vez em quando um ritual mgico.  fazer do dia-a-dia um ritual de amor.
     Ser mago  destruir os castelos de areia do equvoco e da fantasia e ser o arquiteto da base slida da casa humilde da verdade.
     Ser mago  no julgar, mas providenciar o espelho.
     Os dogmas no so mgicos, nem querer que as pessoas tenham f cega  magia.
     Ser mago  mostrar o caminho da certeza de cada um.
     Mgica seria a religio sem regras, sem promessas e sem ameaas.
     Mago  o que tem poder para e no poder sobre.
     Magia negra  no ter respeito por tudo e por todos.
     Magia grande  descobrir que o poder maior est no sentimento humano. Essa  a magia de ser.
     Manu estava sentado no cho com as pernas cruzadas e as mos sobre o colo. Terminou de falar, fechou os olhos e abaixou a cabea como se estivesse rezando ou
meditando. No tive coragem de falar nada enquanto ele permaneceu assim. Tudo em volta parecia reverenciar suas palavras. Uma energia muito forte o envolvia e tomou
conta de mim tambm. Era invisvel e no precisava mesmo se mostrar para me dar a certeza de que havia uma terceira pessoa ali conosco naquele instante.
     Quando se foi, Manu levantou a cabea, abriu os olhos e sorriu. Eu, para que pudssemos continuar a conversa, fiz outra pergunta:
     -Voc falou sobre lugares especiais, "depositrios" de energias e vibraes propcias ao aprendizado. Para as pessoas percorerem o que voc chama de Caminho
dos Magos ser necessrio que visitem esses lugares?
     -Em princpio, sim. Porm, conhecidas as circunstncias materiais nisso implicadas, ns poderemos oferecer meios para aqueles que, impedidos de estarem nesses
lugares fisicamente, mesmo assim possam obter os benefcios de outra maneira.
     H uma forma fsica de se percorrer esse caminho e uma outra, mental. Certamente aquele que puder percorr-lo das duas formas ser beneficiado com uma torrente
maior de vibraes e energias; porm, isso no impedir que os outros tambm o consigam, mas com um grau de dificuldade maior.
     -Sinceramente, no acho isso muito justo -comentei.
     -Eu tambm no. No acho justo que uma pessoa com uma doena e que resida num pas pouco desenvolvido morra porque no teve recursos para procurar a cura que
j existe em um outro lugar. Mas no fui eu e muito menos os Deuses que fizeram o mundo assim e milhagres no existem. O que existe  uma cincia superior que quando
aplicada nos parece milagrosa s porque desconhecemos as tcnicas usadas. Nesse assunto especfico que estamos tratando, tentamos diminuir a injustia usando todas
as tcnicas que conhecemos para compens-la.
     -Eu devo, ento, agora, retransmitir o que est me ensinando e fazendo isso poderei trazer aqui as pessoas que manifestarem interesse em vir?
     -Sim, mas esteja atento. Ningum alcana conhecimentos maiores quando no tem seus sentimentos resolvidos e isso  to importante quanto.  intil buscar o
trancendente sem antes estar completo aqui, estar consciente aqui, estar em Paz aqui. E isso se consegue atravz da virtude mais importante. Aquela que todos reconhecem
que assim , mas que julgam estar no ltimo Portal.
     -E essa no  a mais importante? A que se conhece por ltimo?
     -No. O que se alcana do Segundo Portal em diante  o aperfeioamento do ser. Para se conseguir transpor todos os Portais  vital o que voc consegue no Primeiro.
A virtude, a vibrao do Primeiro Portal  o Amor. Por isso, voc precisar conhec-lo aqui, t-lo aqui.
     -No h amor em mim?
     -No completo, pleno. Ele existe em sua plenitude na essncia de seu ser ou no seu esprito, mas voc encarnado, com a lgica e a razo superando seu corao,
seus sentimentos, ainda no sabe exatamente o que  o Amor. No o sente como deveria, no tem toda a sua energia.
     -E aqui, como voc disse, posso deduzir que  o lugar fsico ideal para atingi-lo com mais facilidade?
     -Exatamente. Este lugar, que hoje  apenas uma pequena ilha vulcnica, foi, no passado, parte do extinto continente Mu, bero da civilizao humana na Terra.
Foi em Mu que os povos das estrelas desceram para instalar a raa humana no planeta. E o povo de Mu, muito depois desse evento, escolheu um lugar para erigir um
monumento, um altar em homenagem  raa humana. Eles delimitaram uma rea e construram uma enorme plataforma na forma de um tringulo isceles que obedecia as medidas
csmicas de 27 por 17. Essa plataforma tinha ento 27 quilmetros de comprimento por 17 quilmetros nos lados e foi toda circundada por colossais esttuas de pedra
representando a raa humana. As esttuas que circundavam o altar triangular eram voltadas para o interior do tringulo e ali foram erguidas outras sete esttuas
que representavam os criadores, os sete comandantes das hierarquias celestes. Depois, ao final de um ciclo csmico, com uma mudana no eixo do planeta, todo o continente
de Mu desapareceu sob as guas do oceano. Erupes vulcnicas levantaram terras e entre essas a parte onde estava esse altar, que acabou ficando na superfcie. Alguns
habitantes de Mu, entre eles membros da classe sacerdotal, escaparam com vida desse grande desastre e foram os primeiros habitantes desta ilha. Receosos de sucumbirem
a outras erupes porque na superfcie da ilha permaneceram por algum tempo outros vules em atividade, decidiram armazenar a energia e as vibraes do seu maior
tesouro em um artefato que construram com essa finalidade. Esse tesouro era o conhecimento do Amor que tinham, porque conheciam os meios de contatar os seus guardies.
Possuindo saber suficiente para energizar pessoas ou objetos, colocaram essa energia do Amor em uma pedra que esculpiram com o formato de um grande ovo que simbolizava
a Nova Vida, ou seja, aquilo que se obtm quando se alcana o Verdadeiro Amor.






     Esse segredo passou de gerao a gerao. Depois, outros povos chegaram at aqui. Aprenderam algumas coisas remanescentes do povo de Mu, continuaram a esculpir
esttuas, porm cada vez de forma mais precria e iam retransmitindo os conhecimentos que foram sobrevivendo aos sculos. Na nossa era comeou a grande decadncia
depois das primeiras incurses de navegantes que descobriram a ilha. Finalmente, a catequese ajudou a sepultar o antigo conhecimento. O pouco que sobrou precisou
ser escondido para no ser tambm destrudo. Isso aconteceu no s aqui, como voc sabe.
     - uma histria e tanto. E sobre a religio dos antigos, Manu, no restou qualquer informao?
     -Eles no tinham propriamente uma religio com o sentido que se d a isso agora. Como tinham conhecimento da vida em todo o Universo, como tinham aprendido
que mesmo os que "vinham do cu" eram homens como eles, no desenvolveram quaisquer costumes, que os levassem a tipos de venerao. Tinham, sim, muito respeito por
esses seres, e, assim, o que norteava suas vidas era o respeito humano, o amor por todos e por tudo. Acho que possuam justamente a nica coisa que no poderia ter
sido esquecida pela humanidade terrestre.
     -Essa pedra a que voc se referiu tambm foi destruda?
     -No. Ela est aqui. Passa despercebida da maioria e os que a conhecem j inventaram um sem-nmero de lendas sobre ela.
     -Mas, se ela tem toda essa energia de que voc fala, como tal coisa pode no ser notada?
     -Porque  preciso estar aberto ao Amor para senti-la. Existem "chaves" para se encontrar o conhecimento e voc no sente uma determinada energia ou vibrao
se no est sintonizado com ela. Nada acontece por acontecer como supem os que desconhecem o verdadeiro significado da magia e como ela funciona. J lhe disse que
 rotulado de mgico aquilo que no se conhece. Na verdade, toda a magia  o simples acionar de mquinas.
     -Rudimentares?
     -No. Exatamente o contrrio. Se com um pedao de pedra, com um amuleto, com um cristal de determinada forma e tamanho consegue-se fazer o que sofisticadas
antenas no fazem, o que  mais rudimentar, o pedao de cristal ou a antena?
     -... -concordei.
     -Analise -continuou Manu. -Compare um aparelho de rdio fabricado em 1930 com um rdio fabricado hoje. O de 1930 era um enorme caixote cheio de fios e vlvulas
e o de hoje  minsculo, cabe dentro de seu ouvido e no tem vlvulas nem fios, mas, mesmo assim,  um rdio. S que no parece um rdio se comparado ao outro. A,
ento, voc pega um cristal e faz dele um rdio. O que acontece com voc? O mesmo que aconteceria se voc construsse um rdio de hoje em 1930. Diriam, em 1930,
que voc fez um milagre ou que  um bruxo, um mago. E se voc conseguir comunicar-se com algum sem usar o rdio feito com um pedao de cristal? Se voc fizer de
voc mesmo um rdio? Se voc usar o que tem em voc, em seu corpo, que  a mquina mais perfeita que existe, se o desenvolve, se o aperfeioa, se desatrofia o que
nos outros j no mais funciona e consegue transmitir e receber com ele? A voc no  nem mais bruxo nem mago,  louco.
     A magia de hoje  a cincia de amanh. Os que a dominam avanando no tempo e os que esto assim,  frente do seu tempo, por no serem compreendidos so repelidos.
E sendo repelidos aqui,  natural que sejam transferidos. Bem, mas isso  outro captulo. Veja, o Sol se pe. Acho que por hoje basta. Vamos?
     Eu voltei para casa em silncio. Com medo de falar e quebrar a ordem dos meus pensamentos. Esforava-me por arquivar tudo o que ouvira.
     Manu acompanhou-me at metade do caminho de volta. A certa altura parou, colocou a mo sobre meu ombro, sorriu e seguiu em outra direo. No me preocupei em
perguntar sobre nosso prximo encontro. J sabia que ele o providenciaria.
     Passei horas fazendo anotaes e depois adormeci.
     No dia seguinte, senti vontade de sair para caminhar um pouco. Peguei a direo do lugar onde tinha conversado com Manu na vspera. Sentei-me no mesmo lugar
e ele chegou pouco depois.
     -Como vai?
     -Tento no esquecer nada.
     -Nem que voc tente, no esquecer.
     Manu levantou-se e ps-se a caminhar em direo ao Norte. Foi bom ter-me lembrado de colocar frutas e sanduches na mochila. "No suporto goiabas", pensei,
j supondo, pela direo que ele tomava, que iramos demorar para voltar.
     Saamos da trilha principal quando passamos por Maunga(6) Tangaroa. Manu tomou uma trilha  direita e disse, apontando para a frente:
     -Vamos l em cima.
     Era cedo ainda. A temperatura de 18 e um vento fraco do Sul tornariam a subida dos quinhentos metros de altitude de Maunga Terevaka mais amena. Foi o que pensei.
     Mesmo assim, o cu azul-escuro inspirou-me a mentalizar a chama azul do segundo raio divino que simboliza a fora interior, a vontade de empreender e a determinao.
Precisava disso tudo para ter pacincia com Manu. Se eu quisesse aprender, tinha que obedec-lo, e para isso era preciso mesmo muita pacincia: pacincia para segui-lo
sem fazer muitas perguntas, determinao para suportar as longas caminhadas que me obrigava a fazer e que muitas vezes me pareciam sem sentido prtico.
     Ele seguia, em silncio, uns trs metros  frente. Seus passos eram firmes, compassados. No parecia estar subindo um morro. Andamos uns vinte minutos e eu
comecei a arrepender-me de ter colocado tantas frutas na mochila. O cantil tambm incomodava. Batia na perna como um martelo. Um passo, uma batida. O peito ardia
como fogo. Droga de cigarro. As gotas de suor entravam pelos olhos e tornavam turva a visao. Tirei o leno do bolso para enxug-los, pisei numa pedra solta e isso
bastou para que eu rolasse uns dez metros pela encosta abaixo. Uma moita evitou que eu casse mais ainda. Bati nela e um bando de manu toke toke(7) saiu voando espantado.
Seu canto parece com uma gargalhada e foi exatamente isso que me pareceu quando voltaram e comearam a gritar sobre minha cabea.
     -Esto rindo os desgraados. Tomem isso! -gritei, atirando-lhes pedras. Ouvi uma outra risada. Era Manu, l no alto da trilha. Ele fez sinal para que eu subisse.
"O desgraado ainda ri", pensei. "Tambm agora vai ter que me esperar." Meus cotovelos e os joelhos ardiam. Ralei-me todo nas pedras. Peguei o cantil levei as feridas.
Olhei para cima e no vi mais Manu. "Tomara que tenha ido embora..." Senti as costas molhadas. Tirei a mochila. Eu tinha rolado vrias vezes sobre ela. Os sanduches
viraram farelo, e as frutas, suco. Atirei-a longe.
     -Ei!
     Era Manu com um bambu enorme nas mos. Estendeu-o e ajudou-me a subir, puxando-me para cima com extrema facilidade. Depois, amparou-me pra que eu pudesse caminhar
at a sombra de um arbusto. Deixou-me sentado ali e foi colher algumas folhas. O solo era parte terra parte pedra. E sobre algumas dessas partes havia gua empossada.
Logo reconheci as "bacias". Os antigos as esculpiam nas pedras chatas do solo para acumular a gua das chuvas. Manu escolheu uma das bacias menores, colocou as folhas
l dentro e as macerou com uma pedra arredondada. Apanhou mais folhas e repetiu a operao. Logo gua era um lquido verde e pastoso que ele passou nas minhas feridas.
Fez tudo em silncio e com cuidado. Minha raiva foi passando junto com o ardor dos ferimentos.
     Manu tirou um leno do bolso da camisa e o empapou com gua de uma bacia. Limpou meu rosto com ele.
     -Respire fundo -disse.
     Manu toke toke passou rindo de novo sobre nossas cabeas. Manu olhou para o alto e sprriu. Ele deve ter-me visto atirando pedras neles.
     -No se importe, eles riem de tudo -falou brincando. -Espere um pouco... -dirigiu-se a um amontoado de pedras e desfez a pilha. Cavou um pouco a terra embaixo
delas desenterrando um objeto estranho. Parecia um basto de madeira com uns oitenta centmetros de compimento. Sacudiu-o para tirar os restos de terra e limpou-o
cuidadosamente com o mesmo leno que usara para limpar o meu rosto.
     Era uma escultura que representava mokomiro, feita em madeira. Mokomiro  uma lendria serpente marinha, divindade mitolgica pasquense, meio homem, meio animal.
     Manu segurou-a pela cabea e com a cauda da serpente, que termina como uma nadadeira, traou um crculo  minha volta enquanto dizia palavras na lngua nativa.
Depois, postou-se s minhas costas e recitou mais algumas coisas das quais s pude entender "Sol e Lua" porque conhecia as palavras Ra'a e Mahina.
     Fez o mesmo postando-se ao meu lado direito,  minha frente e ao meu lado esquerdo.
     No foi difcil deduzir que ele fazia com isso as saudaes aos quatro elementos da natureza, iniciando um ritual de magia.
     Pensei que fazia isso por causa do tombo que levei. Ele parou  minha frente e disse:
     -Respire fundo. Agora conte bem devagar de um a dez. No intervalo entre cada nmero, respire. Assim: inspire e conte um, expire e conte dois, inspire e conte
trs, expire, quatro, inspire, cinco. Faa assim at dez. Procure no pensar em coisa alguma enquanto conta e respira. Se perder a conta, comece do um novamente.
Se comear a pensar em alguma coisa e a sua mente se perder, desviando-se da conta e da respirao, comece novamente.
     Tentei. Da primeira vez s consegui chegar ao seis. Fui tentando at acertar. Ar para dentro, um, ar para fora, dois, ar para dentro, trs, ar para fora, quatro...
Pareo flutuar... Estou leve... Ar para... Cinco... Quanta gente... Seis... Quem ser essa gente... Sete... E aqueles pequenos ali... Esto tratando das minhas feridas...
Quem so vocs... Parece que no me ouvem... Como posso estar aqui de p, me vendo, se estou ali sentado dentro daquele crculo? Ser que morri?... No... No morri...
Estou fora do meu corpo... O velho  um bruxo. Eu nunca consegui fazer isso... Bom... Mas tambm nunca levei isso muito a srio.
     Eu estava fora do meu corpo e consciente disso. Notei uma luz mais forte no vale abaixo de onde est'avamos. Dali se podia ver, bem longe, o monumento dos Sete
Moais. A luz vinha de l. Andei at a borda da trilha sem sentir o cho que pisava. Era como se no existisse peso. Pensei em voar e tive medo. Fiquei olhando de
longe o espetculo das sete esttuas iluminadas. Sobre cada uma parecia jorrar uma torrente de luz pulsante. Uma de cada cor. A primeira rosa, depois azul, dourado,
branco, verde, rubi e violeta.
     Senti um desejo muito grande de me aproximar e instantaneamente estava a pouco metros das esttuas. No terreno plano  frente delas havia um enorme crculo
desenhado com pedras na cho e no centro estava um homem sentado. Pensei reconhec-lo e tentei me aproximar.
     Quando quis entrar no crculo no consegui. Era como se uma barreira invisvel no permitisse. O homem sentado no meio do crculo levantou-se e caminhou at
onde eu estava. Parecia ser Manu, mas era, no mnimo, uns vinte anos mais moo. Trazia nas mos um basto igual ao que Manu desenterrara pouco antes. Ele caminhou
em volta de todo o crculo no sentido anti-horrio, apontando o basto para o cho e depois fez sinal para que eu entrasse, o que fiz sem sentir a tal barreira.
Ele repetiu tudo, mas, dessa vez, no sentido horrio e voltou para o centro do crculo onde novamente se sentou. Sentei-me  sua frente. Ele sorriu e eu tive certeza
de que era Manu.
     -Sou Unam, seu instrutor. Estamos fora de nossos corpos porque o que voc precisa ver tem de ser visto como  e s os olhos do esprito podem ver assim.
     Ele levantou-se e pediu que eu fizesse o mesmo.
     As luzes coloridas, vindas do nada, jorravam sobre as sete esttuas expandindo-se em tubos luminosos que se elevaram e depois se curvaram para baixo, formando
arcos que se dirigiam para vrios pontos da parte Norte da ilha.
     Vendo aqueles enormes tubos luminosos lembrei-me do general Alfredo Moacyr Ucha, do Brasil, que, descrevendo aparies de OVNIs na fazenda de Alexnia, em
Braslia, referia-se a uma luz curva que tambm presenciara numa dessas ocasies.
     -Venha comigo -falou Unam, dando-me a mo. Ele comeou a se elevar no ar, puxando-me junto. Subamos vagarosamente e a princpio senti medo, depois notei que
flutuava por mim mesmo, mas no tive coragem de largar a mo dele.
     Subimos muito e quando olhei para baixo podia ver a ilha inteira. Os tubos de luz que saam das est'atuas formavam arcos enormes que descreviam uma grande curva
e desciam em determinados pontos no Norte da ilha como se indicassem sete lugares sobre a superfcie.
     Permanecemos olhando por uns dois minutos e depois descemos novamente para o centro do crculo de pedra. Senti uma presso no alto da cabea, colocando a mo
no lugar. Meu gesto fez com que Unam se levantasse imediatamente.
     -Voc tem que voltar.
     Dizendo isso, desfez novamente a barreira que existia em volta do crculo usando o seu basto e pediu que eu sasse.
     -Volte -ordenou, enquanto voltava para o centro do crculo sentando-se no mesmo lugar onde eu o tinha encontrado.
     Regressei para onde estava meu corpo e tive a impresso de ter demorado bastante para chegar l. No vi mais ningum alm de Manu. Ele estava de p e mantinha
o basto de madeira apoiado sobre a minha cabea justamente no lugar onde eu sentia a presso. Ele podia me ver. Pelo menos essa foi a sensao que tive. Aproximei-me
e sentei-me ao lado de mim mesmo... Estranho... Ouvi Manu dizendo umas palavras em Rapa Nui.
     Senti o corpo dodo e as feridas ardendo e a cabea doa tambm.
     -Tome, beba isso. -O lquido verde desceu pela garganta to viscoso que pensei que ia vomitar. Manu fez com que eu deitasse no cho. Tirou seu casaco, colocou-o
sobre mim e afastou-se, sumindo pela trilha.
     Quando acordei, a dor de cabea j tinha passado e as feridas j no ardiam tanto,  exceo de uma maior no joelho esquerdo. Aumentei o rasgo da cala naquele
lugar para evitar que o tecido tocasse nele e me levantei. O corpo todo estava dodo.
     Vi os restos de folhas amassadas por Manu na bacia de pedra e fui me lembrando devagar do que acontecera. Puxa! Que tombo levei e que sonho doido, pensei...
     -Sente-se melhor? -Era Manu voltando e trazendo a mochila que eu atirara fora.
     -Desculpe...  que fiquei com uma raiva danada. -respondi pegando a mochila e tentando justificar.
     -Que nada... De vez em quando um pouquinho de raiva faz bem... Acho que voc esqueceu que a dentro tem lanterna, bssola, faca... -disse ele, referindo-se
 mochila.
     -Pois ... Burrice a minha. Obrigado. Ah! E obrigado tambm pelos curativos.
     -Quer um pouco? -Manu ofereceu-me gua de seu cantil enquanto voltvamos para perto dos arbustos. Vi o crculo riscado no cho e lembrei-me de contar-lhe o
sonho.
     -Voc nem imagina... Eu dormi e tive um sonho maluco. Sonhei que sa do corpo e a...
     -E a... -interrompeu Manu -...e a voc viu uma luz no vale e a... -Manu contou-me tudo detalhadamente e a cada frase repetia e a, e a, como se quisesse
brincar comigo.
     Quando terminou de contar tudo exatamente como aconteceu, eu j tinha percebido claramente que no havia sido um sonho. Senti uma sensao de orgulho ou sei
l o qu. No mnimo, estava contente por estar vivendo aquilo e resolvi brincar tambm quando ele acabou de relatar "meu sonho".
     -...E a no foi sonho, aconteceu de verdade.
     -Voc acha que pode caminhar um pouquinho mais?
     -Claro que posso.
     Segui Manu resoluto. O "pouquinho mais" durou ainda uma hora morro acima. Havia, entretanto, vindo de dentro de mim, uma fora estranha que acabei atribuindo
 certeza de estar vivendo algo muito importante e verdadeiro.
     Minha euforia era tanta que quando chegamos ao topo do Maunga Terevaka(8) nem deixei que ele falasse nada. Fui logo at um ponto que dava de ver toda a face
Norte da ilha. Fechei os olhos. Reconstru a viso dos tubos de luz apontando os sete pontos e indiquei cada um deles, dizendo bem alto: Ali est depositada a energia
do Primeiro Portal. Rosa. Ali, a do Segundo, Azul. Ali, a do Terceiro...
     Abri os olhos como se estivesse saindo de um transe. Manu estava ao meu lado. Balanou a cabea afirmativamente, mas sem desviar seu olhar de algum ponto que
parecia fixar no horizonte.
     Eu tinha vontade de gritar, de pular de contente, mas fiquei parado ali ao lado dele, olhando para lugar nenhum, porque parecia que ele no compartilhava da
minha alegria.
     Pouco a pouco a sensao boa foi sumindo. Eu no sabia o que estava acontecendo e me senti meio desnorteado.
     -Podemos voltar agora -disse Manu, forando um sorriso que saiu amarelo.
     -Espere s mais um pouco -pedi. Apanhei a bssola na mochila. Resolvi conferir com ela o Norte pelo qual me havia guiado para apontar os sete lugares. Pensei,
momentaneamente, que eu pudesse ter-me enganado e com isso decepcionado Manu. Apontei a bssola. A agulha pulou de um lado para outro. Ora apontava para a direita,
ora mais para a esquerda.
     -Droga, quebrou...
     -No. No quebrou. Veja... -Manu tirou um papel dobrado do bolso do casaco. Era um mapa da ilha, igual aos que vendem aos turistas.
     -Veja aqui -disse, apontando para uma nota impressa sobre a parte Norte da ilha: "Fuertes perturbaciones magnticas en esta zona."
     Eu j tinha visto isso em outros mapas e lido menes sobre aquele fenmeno, mas nunca dera maior ateno.
     -Est em todas as cartas de navegao -completou ele. - Vamos voltar -disse, dobrando o mapa.
     Comeamos a descer a trilha. Lembrei-me de j ter lido que alguns chegavam a atribuir aquelas perturbaes magnticas a possveis depsitos de algum mineral,
suposies que foram abandonadas depois que pesquisaram e descobriram nada haver desse tipo no solo da ilha e nem perto dela. Agora eu sabia por que a bssola no
funcionava ali. Sete pontos de extrema concentrao de energia... E essa energia devia ser ou ter algo relacionado com magnetismo.
     Manu estava mudo. Apesar de estarmos descendo, seus passos j no pareciam to firmes. Transmitia tristeza. Deve estar cansado, pensei, cancelando qualquer
pergunta.
     Tomamos outro rumo para voltar. Manu cortou caminho pela ravina e s fomos pegar uma estrada em Te Peu, uma rea onde, alm de esttuas, existem muitos petrglifos
interessantes.
     Seguimos para o Sul descendo pelo litoral da costa oeste da ilha.
     S vez por outra Manu respondia com monosslabos a qualquer comentrio que eu fazia e assim decidi calar-me tambm.
     Quando chegamos a Tahai(9), j bem perto do povoado, eram quatro horas da tarde.
     Pensei em parar ali, esperando que Manu resolvesse assim comentar alguma coisa e me explicar o porqu daquela experincia.
     -Vamos parar aqui um pouco? -perguntei.
     -No. Fique voc se quiser. Eu preciso ir.
     Manu estava muito triste, dava para sentir. Ele se foi.
     Atravessei toda a rea gramada do Tahai e fui me sentar perto do mar. Muitas vezes eu ia para aquele lugar s para ficar vendo o pr-do-sol.
     Ele se foi e deixou sua tristeza comigo, pensei sentindo um n na garganta, um sufoco inexplicvel. Deitei-me na grama. Repassei tudo o que acontecera naquele
dia.
     O que poderia ter provocado o fato de eu ter sado do corpo? O cansao? J ouvira falar que a fadiga faz o mesmo efeito de exerccios e treinamentos que as
pessoas fazem com essa finalidade. Alteram o nvel de conscincia... Pode ter sido o cansao... Ou foi aquele negcio de conta e respira, conta e respira? A magia
do crculo? Talvez... Conclu que foi tudo junto e tudo provocado por Manu,  exceo do tombo. Por que ele no fez comentrios? E o seu humor? Mudou to depressa.
Eu fiquei contente... Ser que alguma coisa saiu errado?
     "Deixe seu sentimento falar..." Lembrei-me da insistncia de Manu quanto a isso. Fiquei olhando para o mar se desmanchando em ondas azuis enquanto tentava parar
de pensar para ver se o sentimento me dava uma resposta.
     O Sol foi fazendo seu caminho para o poente, avermelhando-se devagar. Os grandes cmulos foram tomando sua posio no cu, preparando-se para o espetculo que
se repete a cada entardecer na Ilha da Pscoa.
     Ouvi o sino da igreja que no fica a mais de quinhentos metros do Tahai. As pessoas devem estar indo para l rezar na hora da Ave-Maria. Procurei juntar-me
a elas e com o meu pensamento as vi. Simples, puras, entrando na igreja levando consigo apenas sua f. Nenhuma teria tido certamente contatos com extraterrestres,
nem vises ou revelaes do cu e muito menos encontrado um mago que lhes ensinassem os grandes segredos do Universo ou que as guiassem para redescobrir o conhecimento
sepultado em sua terra sagrada. Nenhuma delas teria precisado ser despertada para a realidade maior com artifcios. E naquela hora no estavam indo para a missa
obrigatria dos domingos. Era um dia de semana comum e certamente estavam indo para a igreja levadas por sua certeza interior e no pela f cega imposta aos escravos
das religies.
     Elas j eram magos... Eu ainda no.
     Ajoelhei-me ali, sozinho, para rezar junto com elas e agradecer por ter percebido isso por mim mesmo. E, quando chorei, chorei porque a alegria voltou e porque
dessa vez ela veio no porque eu me julgasse, como antes, maior do que os outros, mas porque descobri que no existem maiores ou menores; a partir dessa descoberta,
que brotou de um sentimento puro, eu poderia comear a crecer. E crescer no para ficar maior do que ningum, mas para poder ajudar que todos descobrissem que tm
o mesmo tamanho.
     Levantei-me sem dores externas ou internas. O Sol se escondeu e s deixou passar alguns raios de luz pelos buracos das nuvens. Lanou focos de luz dourada aqui
e ali por onde eu tinha que passar. Era apenas a luz do Sol, uma coisa natural, mas to grandiosa quanto as luzes que s o esprito pode ver.
     Ouvi vozes recitando o tero quando passei em frente  igreja. Cortei caminho por ruas secundrias para chegar mais depressa  estrada de casa. No lusco-fusco
da tarde, vi um vulto l adiante quase sumindo na estrada. Parei  entrada do jardim de casa. O homem l adiante parou tambm. Mago que era, ordenou ao Sol que o
iluminasse com seu ltimo raio. Fez uma reverncia e sumiu na curva da estrada.
     No era Manu dessa vez. Era Unam, meu instrutor.
     As feridas amanheceram cicatrizadas. Todas.
     No conversei com Manu sobre o que acontecera. Era dispensvel porque, quando o encontrei de novo, a primeira coisa que ele fez foi repetir a reverncia do
dia anterior. Depois, perguntou sobre minhas feridas e demonstrou alegria em v-las ss.
     -At agora lhe falei do Primeiro Portal. Ontem, voc percebeu que aqui esto tambm os outros seis pontos de energia; at ontem nem eu mesmo sabia que isso
lhe seria revelado daquela vez. Contudo, minha misso permanece. Vou gui-lo ao Primeiro Portal. Lembre-se de que, quando trouxer outras pessoas aqui para repassar-lhes
o Conhecimento e gui-las pelo caminho fsico, deve instru-las obedecendo a ordem dos Portais. E s as leve aos outros depois de avaliar profundamente o resultado
da primeira iniciao. No esquea: s traga quem pedir para vir e com essa finalidade s as traga da primeira at a nona Lua cheia de cada ano.
     -Por falar nisso -continuou Manu -, amanh  o ltimo dia da Lua cheia de setembro. Teremos que ficar juntos at amanh  noite. Tenho que lhe explicar algumas
coisas at lev-lo a cruzar o Primeiro Portal.
     Procure relaxar, limpar sua mente. Se quiser, deite-se na grama e feche os olhos, ou, ento, deixe seu olhar perder-se por entre as estrelas. Esvazie sua mente.
     Depois, procure imaginar uma grande plancie e sobre ela um caminho, uma trilha, uma estrada. Construa esse caminho em sua imaginao como quiser. Pode ser
de terra ou de pedras, florido ou no. Mentalize esse caminho. Ele segue reto em direo a um longnquo horizonte. Voc est no comeo desse caminho. Est dando
os primeiros passos nele. Voc busca um portal que existe adiante. Voc no sabe se longe ou perto. Precisa caminhar para alcan-lo.
     Voc no sabe se ter que caminhar muito ou pouco para alcan-lo e voc precisa, nesses primeiros passos, saber se poder alcanar esse portal. Precisa descobrir,
dentro de voc, se realmente quer chegar l e por que quer chegar l. Por isso, vai aproveitar esse incio de caminhada para fazer uma anlise profunda de voc mesmo
para se conhecer melhor.
     Eu vou orient-lo nessa anlise para que voc aprenda a orientar outros que queiram trilhar esse caminho. Vou falar e falar e voc vai ouvir e ouvir, mas sempre
mentalizando que estou a seu lado, caminhando com voc em busca do Primeiro Portal.
     Vou falar enquanto recolho lenha para fazer uma fogueira para nos aquecer durante a noite e para fazer um ch de ervas para ajudar no seu relaxamento, na sua
introspeco. Depois, vou lhe ensinar tambm a fazer esse ch para que voc possa d-lo aos outros.
     Ouvi Manu falando enquanto recolhia pedaos de madeira e depois enquanto armava e acendia a fogueira bem perto,  nossa frente.
     Comecei a sentir o calor do fogo e ele continuou falando.
     -Da mesma maneira que nos preparamos para empreender qualquer viagem, essa que ser a nossa grande viagem requer tambm uma preparao. Assim, at nos aproximarmos
mais do Primeiro Portal, caminhemos e reflitamos juntos:
     Nossas mentes esto sempre sendo induzidas a pensar tendo como ponto de partida os dois extremos representados pelo bem e pelo mal.
     Esse procedimento milenar nos permite vislumbrar uma possibilidade de algum dia construirmos uma sociedade harmnica ou, pelo menos, nos dar a compreenso do
que seria a felicidade para todos?
     Certamente que no, pois apenas pensar numa sociedade onde todos os indivduos seriam felizes  considerado utpico. O cu e o inferno, a nossa busca por um
dos dois ou o fato de negarmos ambos no nos ajudou muito at aqui. Certamente se a verdade estivesse por a j teramos conseguido chegar mais perto de construir
algo mais humano ou, no mnimo, menos catico.
     Exagero? Pessimismo? Certamente no faltarao alguns com tal opiniao. Afinal, 'e mesmo a visao ego'ista ou comodista da maioria que contribui para que o planeta
seja o que 'e.
     Essas palavras tocarao, sem d'uvida, os que foram impelidos a buscar respostas e que conseguiram ficar imunes a qualquer tipo de fanatismo sabendo fincar seus
p'es firmes no chao, mas sem, entretanto, abafar a voz do sentimento.
     Se nascemos como nascemos, sob condioes totalmente adversas tanto do ponto de vista material como espiritual, se quando abrimos os olhos para a nossa realidade
(alguns conseguem) descobrimos que, independentemente do bero que tivemos, estamos cercados pela ignorancia, pela violencia, pelo desamor e que somos sujeitos
`a fome, ao frio, ao calor, `as doenas e que ainda estamos montados num mundo que vai sendo assassinado aos poucos; se temos a sorte de nos sobrar alguma sensibilidade
que nos leva a buscar rspostas e soluoes para um quadro que nao nos agrada; se essa busca acaba por nos levar para fora do planeta `a procura de respostas que
nao encontramos `a nossa volta, o que fazer quando essa viagem nos mostra uma imagem tao ou mais ca'otica do que aquela que encontramos aqui, com os p'es no chao?
     O que fazer entao para tornar nossas buscas menos perigosas e mais aproveit'aveis, j'a que, apesar das consecutivas decepoes, nao conseguimos, sabe-se l'a
por que, deixar de faze-las?
     Assim, para nos lanarmos com segurana em busca do Conhecimento, precisamos antes de uma boa e consciente preparaao. Temos que passar por uma transformaao,
um mudana que ir'a depender inicialmente da nossa capacidade de auto-an'alise, da nossa coragem de encararmos honestamente a nossa pr'opria realidade. Depois, se
sobrevivermos a essa prova que nos coloca despidos diante de um grande e perfeito espelho que nada deixa escondido, poderemos iniciar o nosso "curso de magia", que
nos possibilitar'a alcanar as estrelas.
     O Saber e a Paz das estrelas pertencem aos magos e todos podem transformar-se num deles passando por algumas provas. A primeira delas exige muita coragem, tanta
ou mais do que aquela que o ateu precisa para jogar com a possibilidade da inexistncia da divindade.
     No existe mago ateu. O mago acredita em Deus, ou, melhor ainda, acredita nos ""Deuses". E nas "Deusas", por que no?
     Pensar-se-ia, em pricpio, que ento nessa crena o mago se igualara  maioria. O mago no "acredita" da mesma maneira que os outros acreditam. E ele no se
diferencia dos outros s por isso. Ele pode at usar ou no turbante, medalho e roupas diferentes, conhecer e praticar rituais poderosos e buscar nos lugares sagrados
purificao e conhecimento, mas no ser um verdadeiro mago s com isso.
     Primeiro ter que se livrar dos conceitos equivocados que lhe foram impostos justamente para no permitir que se transforme num verdadeiro mago. E a transformao
comea pela anlise profunda de sua prpria realidade, pela exposio corajosa frente ao espelho.
     Como comear? De onde partir? Qual a primeira lio?
     H uma passagem recente na vida de um Grande Mago que podemos usar aqui: Certa vez, um homem que O ouvia e via os milagres que Ele fazia, perguntou-Lhe: "Mestre,
o que devo fazer para poder seguir-Te?" Ele, ento, lhe respondeu: "Para seguir-Me  preciso que voltes  tua casa e entregues tudo o que tens."
     Certamente o Grande Mago no limitaria tal pedido  simples renncia de bens materiais como  erroneamente interpretado. Antes, Ele quis dizer que para segui-Lo
e com isso alcanar a Grande Luz do Conhecimento  preciso que nos voltemos para  dentro de ns mesmos, que examinemos o que temos e que nos desfaamos de tudo o
que possa nos atrapalhar na caminhada que pretendemos empreender. Os bens materiais, quando mencionados como empecilhos para o aprimoramento espiritual do homem,
devm ser interpretados como smbolos de peso desnecessrio que dificultam a caminhada.  fato que muitos se deixam cegar pela riqueza material, porm a pobreza simplesmente
no qualifica de antemo. Pelo contrrio, a luta diria para vencer a misria tira de milhes at a chance de meditar sobre a espiritualidade. Antes de buscar o
autoconhecimento, o pobre precisa lutar pelo seu po. Alis, esse  um dos mtodos mais eficazes usados pelo nosso sistema, pelos poderes dos homens que dominam
os homens para evitar que todos se tornem magos.
     Assim, para seguir a Luz e alcan-La, temos que "voltar para nossa casa e deixar por l o que no presta".
     O mago  um ser em equilbrio. Temos, ento, que caminhar em busca desse equilbrio.
     Sabemos que caminhadas podem tornar-se mais amenas se tivermos companhia. Um bom acompanhante torna qualquer viagem mais agradvel. Quando vamos por caminhos
desconhecidos, nossa prudncia nos faz buscar um guia que nos garanta segurana.
     Caminhos desconhecidos requerem guias.
     Caminharemos protegidos e orientados pelos guias, encontraremos os guardies, conheceremos os mestres.
     Para iniciarmos a nossa preparao, o mais acertado talvez seja, em primeiro lugar, descobrirmos por que desejamos trilhar esse caminho. Por que queremos ser
Magos? Sabemos o que  ser um Mago? Nosso conceito de Magia  o correto?
     A magia  a aplicao de conhecimentos que, desconhecidos da maioria, so rotulados de csmicos ou transcendentais por alguns e at mesmo de bruxaria ou mesmo
de loucura por outros menos informados sobre essas prticas.
      mgico tudo aquilo que ainda no pode ser explicado pelos conceitos da cincia ortodoxa.
     Os rituais mgicos so, em sua maior parte, constitudos pelo uso de objetos e smbolos para se fazerem as invocaes que possibilitam ao seu praticante a comunicao
com outros planos de existncia. O praticante concentra sua mente usando o objeto como emissor de sua vontade e dirige, atravs desse emissor, a invocao para uma
outra inteligncia.
     O homem  a expresso mxima da Criao e a magia deve, acima de tudo, ser o instrumento que o leve a conscientizar-se de sua condio de ser csmico.
     O respeito que precisamos ter por todas as criaturas e a responsabilidade exigida no tratamento pblico de assuntos dessa natureza exigem todos os enfoques
nessa preparao.
     Conscientizar-se do propsito da busca pelo Conhecimento  o incio da preparao. Aqueles que buscam o Conhecimento para aprimorarem-se como seres humanos
descobriro em pouco tempo que nem  preciso pedir nada para eles prprios. As providncias necessrias para o aprimoramento espiritual e a melhoria da vida material
fluem naturalmente para aqueles que transitam por esse caminho impulsionados por sentimentos elevados.
     Todo aquele que no pe a cabea para funcionar, que se submete s circunstncias sem analis-las, sem refletir, aceita explicaes decorrentes de elucubraes
sobre o desconhecido. O mago, entretanto, no aceita tais possibilidades. O mago busca, investiga, estuda, pesquisa em busca da certeza.
     Tentativas de se explicar a sorte das pessoas, ou o seu destino e principalmente as vicissitudes da vida atravz de doutrinas fazem parte das mil verdades que
nos so impingidas sem qualquer respaldo da razo.
      preciso lembrar, entretanto, que negar tudo isso no  um procedimento equilibrado. Antes, sim, investiga-se.
     A Magia, a sua Magia precisa ser construda sobre uma base firme que voc mesmo erguer sabendo-a verdadeira. Ser a sua certeza inabalvel e no a sua f cega
que lhe dar o Poder dos Magos.
     Assim, voc nasceu e cresceu sob condies propcias ou adversas. Assimilou conhecimentos e costumes alheios. Foi influenciado por honestos e desonestos, por
sinceros e falsos, o "sistema" encarregou-se de deix-lo muito longe da criana que foi.
     Aproveite para descobrir se no est procurando obter da Magia, de qualquer prtica esotrica, solues que esto mais perto de voc do que poderia supor.
     O espelho est  sua frente. Examine detidamente a imagem refletida. Quanto mais coragem tiver em aceit-la, mais lmpida ela se tornar. Livre de suas ansiedades,
carncias, enganos e traumas e, despindo-se da armadura que lhe foi imposta, voc comear a brilhar.
     Brilhar mais e mais aceitando sua realidade com os olhos e o corao bem abertos; e brilhando comear a chamar a ateno de "Outros" que esto sempre atentos,
esperanosos em ver pontos de luz sobre este mundo obscuro.
     Logo voc notar, bem ao seu lado, mostradas por sua prpria luz, outras presenas que podero ser fsicas ou no.
     Quem sabe no podero ser os amigos que lhe faltam ou aquela pessoa especial que pode realmente existir?
     Na verdadeira Magia no existem modelos, declogos ou regras rgidas a seguir. A deciso sobre o que  bom ou mal ser sempre sua. Ser um arbtrio de sua conscincia.
     Em continuidade a este auto-exame, refletir sobre as suas crenas espirituais, sobre a sua formao religiosa.
     As religies foram, quase todas, criadas com as melhores intenes por seus fundadores. Isso, porm, no lhes garantiu trajetrias irrepreensveis.
     Todas elas tm sua prpria "verdade". Algumas baseiam-se em variaes da "verdade" das outras, adaptadas segundo a viso do seu criador. Determinam regras que
seus adeptos devem seguir, fornecendo uma lista do que  bom e do que  mau. Prometem a "salvao" para os que obedecem essas regras e ameaam com o castigo eterno
os desobedientes.
     No vou afirmar agora, nem nunca, que essa no seja a Verdade. Essas observaes so feitas apenas para provocar a sua reflexo. O propsito  aguar sua capacidade
de anlise da realidade porque a maioria foi treinada para aceit-la sem discutir.
     Precisamos antes aprender a pensar por ns mesmos e com isso quebrar tabus, conceitos preestabelecidos, dogmas e regras ilgicas. Precisamos nos soltar para
alar vo com segurana. O Mago em sua formao aceita guias desde que esses o ensinem a caminhar por seus prprios ps.
     Observando que as religies se propem a garantir nada mais nada menos do que o paraso eterno para os seus adeptos e que a estes, para consegui-lo, basta obedecer
a meia dzia de regras, no pode causar qualquer admirao que a maioria prefira ficar com essa soluo simplista. Pura hipocrisia.
     Como tudo o que aprendemos a fazer ou a obedecer automaticamente, falamos de eternidade sem nunca termos refletido um pouquinho sobre ela.
     Quantos j pararam para pensar sobre o que seria existir eternamente? No seria existir por mil anos, nem por cem trilhes de anos. Para sempre  para sempre.
E isso no poderia ser o mais terrvel dos castigos para aqueles que no descobrirem uma razo para existir para sempre?
     Medite um pouco sobre o que  eternidade.
     Uma razo para existir para sempre... Descobri-la  a maior de todas as magias.
     Antes de dar o primeiro passo no caminho dos magos  preciso ento muita reflexo. Sobre voc mesmo e sobre tudo aquilo que o envolve.
     O primeiro exerccio de preparao para comear a trilhar o caminho dos magos foi a sua auto-anlise e agora voc deve avaliar corretamente os conceitos de
Deus, do Bem, do Mal, da Criao, da Eternidade etc.
     Comece sua anlise fazendo um parmetro entre esse deus que lhe foi ensinado e a atual realidade desastrosa dos terrestres. Verifique que no h qualquer coerncia
entre a existncia de um deus Pai, bondoso, justo, amigo etc., e a nossa triste e lamentvel situao.
     Indo um pouco mais alm em sua anlise, lembre-se de que tudo na natureza  criado a partir da participao de um elemento masculino e outro feminino. Tudo
 gerado assim. Por que na "origem" seria diferente?
     Consideramos a dualidade em tudo, menos no Princpio.
     Assim, partindo de um erro, a nica coisa que conseguimos  acumular mais e mais erros e ir nos afastando cada vez mais da Verdade que tanto ansiamos alcanar.
     Com a manuteno de padres de crena e de comportamento que comprovadamente no deram bons resultados, jamais poder existir uma nova Terra, porque para isso
 preciso que antes surjam novos homens.
     O novo homem  o mago, o indivduo consciente, harmonizado com a Natureza e com todo o Cosmos.  o ser pensante, reflexivo, portador do Conhecimento Csmico.
     Toda a sociedade, viciada pelo erro, reage imediatamente ao menor vislumbre de mudana, e a presso decorrente  quase insuportvel. S resistem aqueles que
realmente conseguem vislumbrar em meio s trevas a luz do caminho dos magos e que decidem alcan-la.
     Essa deciso s pode ser considerada verdadeira e definitiva quando  tomada de dentro para fora, ou seja, quando se baseia na fora invencvel do sentimento.
      a opo por uma outra vida.
     Optar pela eternidade  bastante diferente do procedimento usual e comodista de se tentar, obedecendo a meia dzia de regrinhas, garantir a Eternidade.
     Optar significa escolher um comportamento que o transforme e o torne digno, por seu prprio julgamento, de ser eterno. Significa adotar perante a vida um procedimento,
em funo dessa realidade incontestvel, que passe pelo crivo da anlise honesta que o ser faz de si prprio.
     Imagine voc se olhando no espelho e gostando do que v, considerando que nos referimos a um espelho lmpido, que mostra tudo, por todos os ngulos, sem dar
a mnima chanc de que voc possa esconder algo de si prprio.
     Analisar friamente, inteligentemente, sem fantasias, sem crenas gratuitas  pura magia,  a primeira magia que se deve aprender. Isso  o que lhe d a base
firme e verdadeira para trilhar o caminho dos magos.
     J caminhamos bastante. O suficiente para voc se conhecer melhor e fazer uma avaliao correta de seus propsitos. Note que o caminho agora lhe parece mais
suave. Agora ns vamos parar por um instante. Relaxe e mentalize que volta para onde estvamos sentados. Procure sentir novamente o calor do fogo e abra lentamente
os olhos.
     Manu estava sentado ao meu lado olhando fixamente para a grande bola de luz refletida no oceano. A Lua cheia de setembro mostrava-se com esplendor.
     -Sente frio? -perguntou-me.
     -No, estou bem.
     -Ento, agora, vou lhe falar sobre o Primeiro Portal, para depois continuarmos nossa caminhada ao encontro dele.
     No Primeiro Portal est acesa a chama do Amor Divino e essa chama vibra na cor rosa. O Tudo e o Todo advm dessa virtude. Tudo nasce do Amor. Por isso,  a
primeira virtude que precisamos conhecer profundamente.
     O Amor se manifesta de muitas maneiras, mas a sua manifestao mais sublime  o Amor entre dois seres, entre o homem e a mulher. Quando acontece verdadeiramente
o Amor entre um homem e uma mulher, aqueles que o experimentam se conscientizam do quanto  grandiosa a Criao e descobrem que tm uma razo para existir eternamente.
     Esse sentimento preenche qualquer falta que o ser possa sentir e  nele que encontra o estmulo para continuar a existir e se aperfeioar continuamente.
     O Amor entre dois seres  a maior manifestao do sentimento humano, porque  atravs dele que o ser gera, pouco a pouco, um sentimento de Amor por toda a Criao.
     Isso acontece decorrente de uma ordem natural onde tudo  dual. Tudo advm de duas polaridades, o feminino e o masculino. Uma, na natureza,  nada sem a outra.
O homem, parte dessa natureza, tambm deve obedecer essa ordem natural e s se completa, s se manifesta plenamente assim. Um ser, um homem e uma mulher, dois em
um.
     -Almas gmeas?
     -Se voc compreende por alma gmea um ser do sexo oposto, que o completa, que  o seu complemento divino, sim.
     -E quem  a nossa alma gmea?  o nosso prprio ser que se desdobra?
     -No. Esse  um conceito equivocado. Sobre o desdobramento do ser falaremos a caminho do Segundo Portal, mas isso  outra coisa bem diferente do que tratamos
aqui. A alma gmea  um outro ser, um outro indivduo, um outro esprito que, por suas caractersticas pessoais,  exatamente o ser que o completa e pelo qual voc
ter um amor verdadeiro e eterno.
     Toda a Criao surgiu de uma energia dual, feminina e masculina. E, por isso, todo ser, num determinado momento de sua eternidade, muito cedo ou mais tarde,
por circunstncias prprias de sua caminhada evolutiva, percebe a necessidade vital de encontrar a sua outra metade. Por mais evoludo que seja, reconhecer nesse
momento que  incompleto e partir para descobrir o porqu disso.
     Descobrindo, ir perseguir incansavelmente esse objetivo, ou seja, encontrar o ser que ir complet-lo. Esse ser poder j existir, j ter sido criado ou no.
Poder estar atrs, junto ou adiante dele no caminho da evoluo.
     -H alguma coisa que se possa fazer no sentido de facilitar essa descoberta ou esse encontro? Existem meios de sabermos quem , onde est e se j a encontramos
ou quando iremos encontrar nossa alma gmea?
     -Cada ser, cada esprito, cada homem  nico. No existem dois seres exatamente iguais. Essa individualidade  que faz a grandeza de cada um,  o que d a cada
um sua caracterstica divina.
     Por ser nico, nica tambm  a situao de cada ser. Assim, as circunstncias relativas a esse encontro tm variaes incomensurveis. Existe toda a sorte
de situaes.
     Podemos diminuir o nmero dessas variantes nos atendo aos que esto encarnados aqui e agora e que podemos ajudar passando esse conhecimento.
     Para aqueles que vivem aqui e que querem encontrar sua companheira, seu companheiro eterno, que desejam identific-lo, que querem encontr-lo ou que julgam
j o terem encontrado, o caminho para essas respostas passa em primeiro lugar por uma consulta ao prprio sentimento. E essa consulta precisa ser to sincera quanto
a anlise que voc fez de si prprio para chegar at este ponto do caminho.
     Algumas pessoas diro: Eu j tenho um companheiro ou uma companheira e sinto ser este ou esta a minha alma gmea. Outras tm seus companheiros, porm no sentem
serem eles o ser que sonhavam encontrar. Outros, ainda sozinhos, sentem a necessidade de encontrar seus companheiros e os pressentem prximos ou distantes, e assim
por diante.
     So os prprios seres que elegem seus companheiros. Essa  a primeira regra a ser aprendida para que se possa responder, depois de muitos outros passos, quem
, onde est e quando ser o encontro.
     Um casal j unido por um grande amor pode, com a fora e a verdade desse sentimento, determinar que essa unio terrestre seja a definitiva.
     -Num caso assim, no se justifica usar o conhecimento que voc me transmite agora e levar esse casal a "alcanar o Primeiro Portal"...
     -Comparecendo  presena dos guardies do Primeiro Portal o ser se conscientiza e se abre plenamente para esse sentimento. Pessoas numa situao assim s iro
sedimentar a certeza sobre o que sentem.
     -Acho extremamente difcil obter-se essa certeza...
     -No o  para aqueles que consultam com sinceridade o ntimo de seu corao. O que voc sente verdadeiramente  o que d a sua resposta. Ontem, por exemplo,
voc no teve uma resposta dada por seu corao e que foi verdadeira e definitiva para voc?
     O que ns podemos fazer para facilitar essa resposta ou para auxiliar na busca e no encontro desses dois seres, que, na verdade, foram criados um para complemento
do outro,  ensin-los a caminhar at o Primeiro Portal do Caminho dos Magos e l obter de seus guardies a ddiva desse Portal que  o prprio Amor. Essa ddiva
 a compreenso exata do que  esse sentimento e os seus guardies ajudam, orientam e at encaminham fatos que possibilitem esse encontro.
     -Por enquanto, Manu, me desculpe, mas o que voc diz me parece muito filosfico e pouco prtico. Como se d essa compreenso?
     -Primeiro pela sua vontade, por voc determinar que isso acontea, "comparecendo", "apresentando-se" aos guardies. Eles faro com que sua vida seja encaminhada
para que se d essa compreenso atravs da revelao desse sentimento. Na prtica, como voc quer, o que acontece  que voc passa a vibrar, a emitir uma frequncia
vibratria compatvel com esse objetivo especfico.
     -Essa frequncia seria ajustada com o comparecimento perante os guardies?
     -Sim. Provocaria uma sucesso de fatos para dar ao ser a certeza que de fato sente o Amor.
     -Por essa sucesso de fatos a que voc se refere quer dizer que se esses dois seres que precisam se encontrar estiverem naquele momento encarnados aqui, sero
providenciados fatos que provoquem esse encontro?
     -Digamos que sim. Melhor seria dizer que primeiro tais fatos seriam facilitados ou provocados justamente pelo ser estar harmonizado com o que deseja. Essa harmonia
existiria porque a frequncia vibracional estaria corretamente ajustada. Depois, poderamos tambm dizer, como voc deduziu, que, se necessrio, outros fatos seriam
providenciados para garantir o objetivo e isso seria uma interferncia direta dos guardies.
     -Mas isso no pode gerar problemas? Por exemplo, suponha que duas pessoas que vivem juntas aqui, unidas pelo casamento ou no, se utilizem desses conhecimentos
e concluam que o que sentem um pelo outro no  o verdadeiro amor, ou um deles conclua que sim e o outro que no. Isso no iria prejudicar ao invs de ajudar?
     -Com uma anlise superficial, egosta, comodista e hipcrita, sim. Justamente por isso lhe recomendei sobre a auto-anlise que cada um deve fazer durante os
primeiros passos em direo ao Portal.
     No h sentido nem mesmo em iniciar essa caminhada se o indivduo no busca uma real transformao. Se ele no quer ou no tem coragem suficiente para desmascarar
suas prprias mentiras, preferindo se esconder nas malhas do comodismo e da hipocrisia, no deve nem tentar dar o primeiro passo no Caminho dos Magos.
     Costumo dizer que as pessoas podem rezar para pedir benefcios, mas que precisam tomar cuidado porque, ao rezar, correm o srio risco de terem suas preces atendidas.
Voc no pode ser inconsequnte e superficial quando lida com o que desconhece e muito menos pode querer que aquilo que  csmico, e portanto verdadeiro, se adapte
s grandes mentiras ou fraquezas terrestres.
     Imagine que voc faa uma orao e nela pea por sua felicidade. Digamos que esse pedido seja recebido por algum que tenha uma ampla viso de sua existncia.
Digo de sua existncia e no de sua vida. Voc faz tal pedido com a viso limitada  sua vida e o ser que lhe escuta no tem esse limite. Ele analisa o que voc
precisa em nvel de sua existncia eterna e assim pode ser que aquilo que representa valor para voc no o seja se considerada sua eternidade. A voc pede uma coisa,
recebe outra e se rebela, acha que seu pedido no foi atendido. Da a recomendao repetida de que voc antes de se enveredar pelo que desconhece faa a sua opo.
O que voc quer realmente? A eternidade feliz ou um momento feliz?
     -Muitos dizem que a felicidade , na verdade, uma coleo de momentos felizes.
     -Para quem no conhece a outra, pode ser. Mas a avaliao correta disso s pode ser feita para quem descobre e alcana o Amor Verdadeiro.
     -Isso ento, voc reafirma,  possvel de se obter aqui?
     -Certamente.
     -Ento, todos os que desejarem podem saber quem , onde est e quando encontraro sua alma gmea e podem providenciar para garantir ou apressar esse encontro?
     -Sim.
     -No  uma afirmao perigosa? Suponho que todos os que procurarem alcanar esse sonho desejaro encontr-lo aqui e imediatamente e os que no o conseguirem
podero, em razo da decepo, abandonar toda e qualquer busca do Conhecimento.
     -Se forem bem instrudos, se forem bem esclarecidos, se compreenderem esse objetivo tero esclarecimentos suficientes e alcanaro, descobrindo ou no, encontrando
imediatamente ou no suas metades, a mesma Paz, a mesma Fora, a mesma Felicidade, porque tero a certeza de quem ela  e onde est. Sentiro que ela existe e o
que tero que fazer para encontr-la.
     -Desculpe, Manu, mas eu insisto no ponto do perigo de um casal que se submete a essa busca e que no fim descobre que vive uma unio mentirosa ou pelo menos
equivocada...
     -Quem vive assim no precisa de magia para descobrir, precisa  de coragem para reconhecer que vive assim. Ningum que  infeliz numa unio desconhece isso.
Pode, sim, fingir que  feliz porque  mais prtico, mais cmodo.
     Os que procurarem instruir-se e utilizar-se do Conhecimento para encontrarem-se com seus sonhos sero os que se conscientizaram, que optaram por encontrarem-se
primeiro com eles prprios. Seria um contra-senso se propor a encontrar quem quer que seja sabendo que ainda no encontrou nem a si prprio.
     -Por isso a anlise?
     -Sim. E cumpre a voc, se pretender ensinar o que lhe retransmito, insistir nisso. Deve primeiro deixar tudo bem colocado para depois permitir-se ajudar a quem
o procurar com esse propsito.
     -Poderei ento repartir o que voc me ensina?
     -Poder e dever.
     -At revelar e tornar acessvel a outros os segredos e as facilidades que esto aqui?
     -Sim. Nisso, entretanto, voc poder encontrar dificuldades por motivos puramente materiais e ter que receber instrues de como proceder para que muitas pessoas
no se sintam discriminadas.
     -Como assim?
     -Muitas coisas so totalmente inacessveis  maioria das pessoas porque a civilizao desenvolveu um sistema discriminatrio. Criou bens a serem consumidos,
mas que no podem ser comprados por todos justamente com o propsito de escravizar-nos a metas materiais. Isso criou as diferenas sociais e as injustias.
     -No compreendo o que isso tem a ver...
     -J lhe explico... Imagine o efeito desastroso que seria causado a uma pessoa se, por questes meramente econmicas, ela se sentisse impedida de levar adiante
seu propsito de aperfeioamento como ser humano. Se ela se entusiasmasse pelo que voc revela sobre o Caminho dos Magos, mas julgasse que isso fosse inacessvel
a ela por supor, por exemplo, que no teria recursos suficientes para vir at este lugar.
     -No teria sentido algum. Alis, seria algo totalmente incoerente.
     -Pois . Por isso  que eu disse que voc teria que receber instrues especficas para no deixar nada obscuro e assim no dar margem a interpretaes erradas.
Mesmo porque no falta quem queira sempre deturpar informaes dessa natureza.
     -Ento, posso deduzir que ser possvel obter os mesmos resultados mesmo para as pessoas que no possam vir at aqui?
     -Mais ou menos, sim. Mas, para voc compreender isso melhor, daremos continuidade  sua prpria caminhada rumo ao Primeiro Portal. Assim voc ter mais facilidade
em perceber como repassar o Conhecimento e torn-lo acessvel at mesmo aos que no tiverem meios de vir at aqui.
     -Antes que voc continue, Manu, eu queria que voc me esclarecesse sobre o fato de s aqui poderem-se encontrar as melhores condies de energia e vibraes
para este comeo de caminhada ao Primeiro Portal.
     -Se o ciclo de desenvolvimento da sabedoria humana terrestre no tivesse sido interrompido pela destruio das civilizaes depositrias das revelaes, isso
no aconteceria. Certamente todos os povos teriam obtido as mesmas informaes e o Conhecimento teria sido difundido por todos os recantos do planeta. Mas houve,
por fraqueza dos homens, uma inverso desse processo.  medida que algumas civilizaes, por fora do desenvolvimento de tcnicas mltiplas, puderam deixar suas
terras em busca de descobertas, quando as faziam traziam em mente a conquista do poder e no a conquista de novos conhecimentos. Pelo contrrio, quando se deparavam
com esse conhecimento, muitas vezes superior aos deles, tratavam de destru-lo em vez de tentar aprend-lo. Faziam isso justamente porque queriam subjugar esses
povos e no compartilhar nada. Por isso o Conhecimento Csmico foi destrudo ou escondido por aqueles que o detinham. Os que sabiam desses segredos, conhecendo a
ndole dos conquistadores, facilmente deduziram que eles no mereciam receber esse Conhecimento.
     Assim, o ciclo foi interrompido e  por isso que hoje voc precisa se deslocar por todo o planeta em busca de pontos energticos especficos ou ento buscar
meios alternativos para substitu-los quando aparecem impedimentos tais como a impossibilidade de fazer essas viagens.
     Mas, agora, venha comigo. Enquanto caminhamos e eu o guio ao Primeiro Portal, voc ter informaes de como proceder com aqueles que no puderem vir at aqui.
     Procure caminhar com tranqilidade enquanto me escuta. Mentalize o caminho que o levar ao encontro da virtude do Amor Divino. Busque a harmonia com tudo o
que observar, com as pedras, com as plantas, com a luz do luar, com a brisa, com os rudos dos insetos, com as ondas do mar.
     Deixe seu ser sentir a aproximao com um outro ser. Procure senti-lo e imagin-lo cada vez mais perto.
     Se voc no estivesse aqui, percorrendo o caminho real, fsico, poderia construir esse caminho em sua mente, imaginando-o de maneira que a imagem mental lhe
sugerir.
     Aqui, eu o guio em direo ao lugar onde foi depositado, por magia, pela manipulao de energias e vibraes, a fora da virtude representada pelo Primeiro
Portal. A proximidade fsica facilita sua mentalizao e o seu contato com os guardies do Portal.
     Mas, se voc no estivesse aqui para equilibrar a distncia entre voc e esse ponto energtico, voc poderia usar a magia para construir uma ponte entre voc
e este lugar. Poderia, para realizar essa magia, por exemplo, utilizar o ritual das velas.
     As velas, quando usadas corretamente como instrumentos de magia, auxiliam no processo de concentrao da fora mental e da vontade, permitindo a emisso e a
recepo perfeitas de pedidos ou qualquer outra comunicao, e se constituem um meio muito eficaz de se obter, por exemplo, ajuda csmica. Conhecendo-se o uso correto
da cor, os dias e as horas mais propcios a cada tipo de pedido e a participao das foras elementais pode-se, com facilidade, transformar a simplicidade das velas
num infalvel instrumento mgico.
     Aquele ento que quiser fazer o primeiro trecho do Caminho dos Magos apenas mentalizando-o pode, para facilitar essa tarefa, realizar um ritual com velas para
integrar-se  fora do depositrio de energia que est aqui na ilha.
     Esse ritual poder ser feito ao ar livre ou dentro de casa sem qualquer problema. Para realiz-lo utilizam-se duas velas de cor rosa, duas brancas, uma vermelha,
uma verde e uma prateada. Como no  fcil obterem-se velas prateadas, essa pode ser substituda por outra vela branca.
     O dia propcio para realizar um ritual de velas ligado ao Amor  a sexta-feira e o horrio pode ser escolhido entre trs: da 1 s 2 horas, das 9 s 10 horas
ou ainda das 17 s 18 horas.
     De posse das velas, o praticante dever, em primeiro lugar, procurar uma total integrao com elas, que sero o instrumento principal do ritual. Essa integrao
 feita atravs da "oleao", ou seja, o praticante coloca um pouco de leo, de qualquer tipo, em suas mos e passa o leo nas velas que ir usar, mentalizando que
elas sero o elemento de ligao de sua mente com os guardies do Primeiro Portal, que nesse ritual ser simbolizado por um crculo que o praticante traar no cho,
riscar na terra ou usar um giz, por exemplo.
     Traado o crculo, este ser dividido em quatro quadrantes: norte, sul, leste, oeste. A cada ponto cardeal, o praticante ligar um dos elementos. Considerar
o elemento terra ao norte, o elemento ar ao leste, o fogo ao sul e a gua ao oeste. No quadrante norte colocar fora do crculo a vela verde. Uma vela branca, para
o ar, no leste. A vermelha ser para o fogo, ao sul, e a outra vela branca, para a gua.
     Acender essas velas, uma a uma, comeando pela verde e seguindo no sentido horrio. Ao acender a vela verde, mentalizar o elemento para o bom encaminhamento
desse ritual que faz com a finalidade de se harmonizar com toda a natureza e com os guardies do Amor. Ao acender a vela branca dedicada ao ar, mentalizar os elfos,
seres do ar, e far a mesma mentalizao e o mesmo pedido. Com a vela vermelha mentalizar as salamandras, elementos do fogo, e com a outra vela branca mentalizar
e pedir o mesmo aos trites e s ondinas.
     Feito isso, colocar a outra vela branca ou a prateada, se tiver conseguido, no centro do crculo, e acendendo-a, mentalizar a Criao, a Divindade, supondo-a
constituda por dois seres, um feminino e outro masculino. Far  Divindade o mesmo pedido e por fim colocar as duas velas cor-de-rosa ao lado da vela que foi colocada
no centro do crculo e as acender tambm, mentalizando que simbolizam os guardies do Primeiro Portal, pedindo que eles transfiram para ali toda a vibrao e toda
a energia do Amor e para que permitam que o praticante com elas se harmonize para que sua vida seja encaminhada ao encontro da pessoa que  o seu complemento divino,
sua alma gmea.
     Para finalizar essa parte do ritual, o praticante, utilizando-se de um basto, que poder ser uma varinha de madeira, traar um outro crculo por fora do anterior,
envolvendo inclusive as velas colocadas fora do primeiro crculo. Esse segundo crculo  a chamada proteo ao ritual. Deve ser feito no sentido horrio, e enquanto
o faz, traando-o ou mentalizando-o, o praticante pede a todos os seres envolvidos no ritual que protejam aquele trabalho mgico de qualquer fora ou vibrao que,
porventura, possa prejudic-lo.
     Esse ritual deve ser feito antes de o praticante iniciar sua caminhada mental em direo ao Primeiro Portal e essa caminhada mental  feita com a mentalizao
de que o praticante de fato percorre um caminho e que enquanto o percorre faz sua auto-anlise e suas reflexes sobre tudo o que lhe foi ensinado inerente a esse
objetivo. O praticante pode fazer a mentalizao de que percorre o caminho quantas vezes quiser, repetindo sempre esse ritual. O tempo de durao dessas mentalizaes
 determinado pelo praticante, que no precisa esperar que as velas se apaguem para encerrar suas mentalizaes. Entretanto, dever deixar as velas queimarem at
o fim, e, quando estas se apagarem, o praticante, munido do mesmo basto, desfaz o crculo de proteo, traando-o novamente, mas, dessa vez, no sentido anti-horrio.
Enquanto faz isso, mentaliza ou verbaliza seu agradecimento aos seres envolvidos no ritual, dispensando a proteo oferecida ao mesmo. Finalmente, poder apagar
o crculo e, se sobrarem restos das velas, dever recolh-los e atir-los na gua ou na terra de um jardim.
     Caminhei alguns quilmetros acompanhando Manu. A cada passo parecia estar me aproximando de uma fonte de luz e calor. Manu estava bem ao meu lado. Eu o ouvia
bem, mas parecia estar distante.
     Caminhvamos em direo ao mar. A Lua estava bem  nossa frente e riscava as guas com um trao de prata. Manu parecia guiar-se por ele.
     -O Primeiro Portal, bem como os demais,  guardado por um ser completo, ou seja, por um homem e por uma mulher. Todas as crenas, ordens religiosas e esotricas
falam dos sete guardies e das virtudes que representam e personalizam. Porm, mesmo na Teosofia, que lhe recomendei para que usasse dela os nomes dados aos guardies,
quando fala do Amor se refere no a um ser isolado, mas a um casal, um homem e uma mulher. Isso deve chamar nossa ateno e nos sugerir ou permitir supor que mesmo
com o esquecimento do Conhecimento ou com as deturpaes propositais ou no que ele sofreu, no foi possvel deixar de representar o Amor Verdadeiro e nem se referir
a ele com o simbolismo de um ser somente e sim por um homem e por uma mulher.
     Procure caminhar os ltimos passos que o separam do Primeiro Portal mentalizando que, ao
atingi-lo, voc receber todas as vibraes ben'eficas e necessrias  consumao de seu encontro com o ser que  o seu complemento.
     Conscientize-se de que Paulo, o Veneziano, e Rowena, guardies do Amor Divino, unem-se a voc para facilitar esse encontro. Voc se aproxima deles, voc caminhou
at eles para pedir ajuda para que esse encontro se tornasse possvel aqui mesmo, durante esta sua vida na Terra.
     Na verdade, voc caminha agora ao encontro do Amor, do seu amor. Daquele que o transformar num ser completo, equilibrado, em paz.
     A cada passo voc se aproxima mais dela. Sinta isso. Sinta isso.
     Manu repetia a frase, sua voz parecia estar cada vez mais distante. Uma sensao de paz indescrit'ivel era exatamente o que eu sentia.
     Uma grande pedra oval estava bem  nossa frente. Respingos das ondas batiam nas pedras prximas e iluminados pelo luar pareciam produzir uma chuva de pontos
de luz sobre ela. Eu sentia que o calor e a luz vinham daquela pedra. Parei.
     Manu colocou a mo sobre meu ombro e levantou bem alto a tocha que levava.
     -Aproxime-se... Ajoelhe-se  frente dessa pedra e a abrace. Deixe que toda a energia aqui depositada invada seu ser.
     Fiz o que ele mandou. Abracei a pedra oval, encostando minha cabea sobre sua superfcie molhada pelo mar e comecei a sentir que caa num vazio...
     O horizonte longnquo era recortado por enormes picos pontiagudos. Florestas grandiosas se sucediam, misturadas a clareiras e campos por onde corriam riachos
que formavam, aqui e ali, cascatas e cachoeiras. Enormes borboletas eram o nico movimento naquela paisagem fantstica, banhada inteira por uma tnue luz esverdeada.
Todas as pedras e at as grandes montanhas pareciam ser de cristal verde.
     Eu via todo aquele esplendor natural de muito alto, pairando no ar.
     Ela estava ali, em algum ponto daquela terra toda verde. No podia v-la, mas podia senti-la e sentia mais ainda a sua tristeza.
     De repente, o silncio que parecia envolver todo aquele planeta verde por inteiro foi bruscamente interrompido por um grito de dor: "... No agento mais...
No agento mais..." Eu podia ouvir o grito dela repetido pelo eco das montanhas de cristal verde enquanto fui me afastando dali, caindo de novo num espao vazio,
sempre ouvindo aquele grito de dor e tristeza.
     Abri os olhos. Meu rosto estava colado  pedra, misturado a suor, gua e gros de areia. O vazio em que me senti caindo parecia ter-se alojado dentro de mim.
Um n na garganta e a perplexidade de momentaneamente no saber nem onde estava e nem o que estava acontecendo no me permitiam levantar. Tentei, mas as pernas no
me obedeciam.
     -Est tudo bem. Calma. Relaxe. Est tudo bem.
     A voz de Manu me trouxe de volta a memria e consegui me localizar novamente. Manu ajudou-me a levantar. Estava tonto e a luz do Sol nascendo agredia meus olhos.
     Manu, segurando-me por um brao, guiou-me at a beira do mar. Fez-me entrar at a gua chegar  minha cintura.
     Ficamos ali at que eu me sentisse melhor. Voltamos. Sentei-me na praia e Manu afastou-se pedindo que o esperasse. Voltou minutos depois trazendo bananas e
goiabas.
     -O que aconteceu -perguntei.
     -Voc alcanou o Primeiro Portal. Agora vamos voltar para casa porque voc precisa descansar. Depois lhe explicarei. Procure distrair-se e por enquanto no
pensar no que aconteceu aqui.
     -Que lugar era aquele? -insisti.
     -Esquea. Voc deve relaxar. Teremos muito tempo para conversar sobre isso. Vamos.
     Manu levantou-se e eu o acompanhei, olhando para aquela pedra oval e tentando imaginar se algum mais, vendo-a ali,  beira dgua, saberia de todo o poder que
nela est depositado.
     -As poucas pessoas que a conhecem, principalmente pescadores, acreditam que ela  uma espcie de amuleto que ajuda nas pescarias -disse Manu como se adivinhasse
o que eu pensava.
     No caminho de volta, Manu tentava me distrair mostrando-me plantas, rvores e pssaros e chamando a minha ateno para certas paisagens. Ele me acompanhou at
a porta da casa, demonstrando preocupao e despediu-se de mim repetindo as recomendaes.
     -Se quiser, encontre-me l pelas quatro da tarde no cais dos pescadores e agora v dormir.
     Fiquei na varanda vendo-o ir-se, ao mesmo tempo em que tentava ordenar meus pensamentos que no se afastavam dos acontecimentos daquela noite. No era fcil
atender aos pedidos de Manu para deix-los afastados da minha mente por enquanto.
     O vazio por dentro parecia aumentar.
     Pensei em dormir, mas no consegui. Tomei um banho. Depois arrumei um pouco a casa. Na hora do almoo, no tinha fome.
     Achei melhor gastar o tempo que faltava para encontrar-me novamente com Manu para anotar os ltimos acontecimentos e tudo o que ele transmitira nas ltimas
horas. Distra-me e s cheguei ao cais l pelas cinco da tarde. Manu atrasou-se tambm. S chegou uma hora depois.
     Eu j estava pensando em desistir de esper-lo quando ele apareceu apressado e desculpou-se.
     -Tive que levar uns amigos ao aeroporto -explicou.
     Depois, disse-me que esses amigos eram alemes aos quais ele estava orientando e s assim fiquei sabendo que eu no tinha a exclusividade dos seus ensinamentos,
conforme supunha at aquele momento.
     Caminhavamos nos afastando do povoado. Parecia que ele no gostava mesmo de se expor a outras pessoas. Talvez por isso ningum parecesse conhec-lo.
     Comentei esse fato e ele me disse que todos o conheciam, mas que tambm sabiam qual era o seu trabalho e que por isso nada comentavam. Diziam que no o conheciam
porque sabiam que ele  que tinha que procurar algumas pessoas e no essas por ele.
     -Se no agissem assim -comentou -, eu no teria mais sossego para fazer meu trabalho.
     -Mas voc disse que eu, por exemplo, poderia divulgar seus ensinamentos e at trazer gente aqui para percorrer o Caminho dos Magos...
     -Sim, justamente por isso lhe passei as instrues. Para que voc as retransmita. A mim cabe instruir alguns para que esses repassem o que aprenderam.
     Escolhemos um lugar para sentar depois que nos afastamos bastante do povoado.
     -E ento, como se sente agora? -perguntou-me.
     -Tenho a sensao de estar vazio. Parece que me falta alguma coisa... No sei explicar bem.
     -Isso vai passar logo. Assim que o esclarecer sobre o que aconteceu depois que chegou ao Portal. Quando voc recebeu a energia que estava na pedra, sua mente
se abriu para fatos reais de sua existncia que estavam bloqueados. Fatos guardados em seu subconsciente.
     O propsito da caminhada ao Primeiro Portal  o de alcanar o Amor, despert-lo plenamente em seu ser.
     No seu caso, como seu ser j o possui, era preciso que fatos marcantes em sua existncia, ou seja, na existncia do seu ser, fossem conhecidos por voc, conscientemente.
     Voc j havia encontrado a mulher que o acompanhar na eternidade. Porm, a deixou para cumprir uma misso na Terra. Nem voc e nem ela tinham mais necessidade
de encarnarem aqui com propsitos evolutivos. Por isso voc pediu a ela que ficasse, que o esperasse voltar. Sua misso ampliou-se e isso, alm de exigir sua fora
completa, que s  conseguida com ela junto a voc, tambm a afetou, porque voc, pelos planos iniciais, j deveria ter voltado h muito tempo.
     O fato que o abalou foi ter-se recordado do lugar onde ela est e tambm por ter tomado conhecimento do estado emocional em que ela se encontra por causa da
separao prolongada.
     Comecei a pensar que Manu no me traria benefcios. Antes, pelo contrrio. Ele ativara em mim um sentimento que at ento eu desconhecia em sua plena e verdadeira
manifestao. Fizera depois me lembrar de algum e sentir uma saudade muito grande dessa pessoa. Minha cabea estava confusa porque era isso o que eu sentia, mas,
analisando tudo ao nvel da razo, provocava um grande conflito interior. No seria tudo fantasia? Meu sentimento dizia que no e a razo insistia que sim.
     -Voc me fez desejar estar junto de uma pessoa que no conheo, que no sei onde est e que pode, na verdade, nem existir -desabafei, reclamando de Manu.
     Manu Sorriu.
     -Tranqilize-se. No diga nada agora que possa fazer arrepender-se em breve. Tenha pacincia e espere um pouco mais.
     Faa algumas perguntas a voc mesmo. Deixe que sua mente, que sua rezo pergunte ao seu corao por essa pessoa. Voc ainda tem bastante tempo para ficar aqui.
Aproveite a vibrao, a energia, a tranqilidade deste lugar para meditar definitivamente a sua verdade. Se for preciso, pode voltar at a pedra quantas vezes quiser.
Fique por l pelo tempo que precisar. A energia que est nela ir ajud-lo.
     -Fale-me mais sobre aquela mulher. No pude v-la, mas a ouvi. O que queria dizer?
     - melhor que espere que seu sentimento se liberte das algemas da razo. Depois voc saber.
     Passei semanas sem encontr-lo.
     Ocupei meu tempo dividindo-o entre cuidar da manuteno da casa, escrever, pintar e muitas visitas  pedra oval, onde passava horas meditando sobre os ensinamentos
de Manu.
     Tinha ido para aquele lugar perdido no meio do Pacfico para aprender e assim decidi que levaria tudo adiante nem que fosse para concluir depois que tudo no
passava de uma grande mentira. No podia evitar de racionalizar tudo, mas procurava, com esforo, dar uma chance ao que sentia, seguindo os conselhos de Manu.
     Quando ia at a pedra, repetia o gesto de abra-la e pedia aos guardies que me dessem equilbrio para seguir adiante com segurana.
     Comecei a pintar quadros nos quais conseguia colocar a tranqilidade que pouco a pouco tomava conta de mim.
     O vazio interior que sentira logo depois da experincia foi sendo substitudo por uma sensao de paz e tambm por uma ansiedade porque no podia deixar de
sentir que eu caminhava em direo a alguma coisa grandiosa. Parecia que a qualquer momento algo de muito importante iria acontecer.
     Resolvi procurar Manu. Passaram-se seis semanas desde a ltima vez que eu o vira. Tentei lembrar-me do caminho que fizemos at a sua gruta e acabei andando
por toda a ilha sem encontr-la.
     -Eu lhe disse que sou eu que o encontro.
     Foi o que o ouvi dizer, censurando-me, quando finalmente o encontrei dias depois de ter comeado a procur-lo.
     -Voc precisa aprender agora a caminhar por seus prprios ps. No pode desenvolver qualquer tipo de dependncia em relao a mim. E lembre-se disso para no
deixar acontecer com nenhum daqueles que mais tarde ir instruir. O que voc j sabe  o suficiente para seguir por seus prprios meios.
     -Voc sempre fala naqueles que vou instruir. Como vou fazer tal coisa se ainda nem sei se acredito no que ouvi de voc?
     -Voc no tem que acreditar em nada. Eu lhe disse que os magos no acreditam, eles tm certezas. Voc retransmitir suas certezas somente.
     Eu ouvia Manu fazer aquelas afirmaes, mas tudo me parecia ainda muito distante, inalcanvel. Assim era como me sentia apesar de estar envolvido tambm por
um sentimento muito bom. Parecia que era algo que pouco crescia e me envolvia com boas sensaes. Mas, como eu sempre me sentira muito bem ali na Ilha da Pscoa,
no deixava me impressionar com facilidade. Repelia qualquer pensamento que tentasse atribuir essas sensaes ao que estava acontecendo com relao ao que Manu me
transmitia.
     Acho que era uma espcie de defesa contra o que o meu sentimento tentava fazer com que eu enxergasse.
     Os meses se sucediam. Na verdade, eu no me importava com o tempo. S me lembrava dele quando chegavam cartas sempre reclamando, cobrando notcias.
     Eu me sentia cada vez melhor. Era como pressentir a aproximao de alguma coisa que eu ainda no sabia explicar, ou, quem sabe, aceitar.
     Comentei tudo com Manu.
     -Voc ter essa dificuldade enquanto insistir em medir o sentimento com a razo. O que voc sente  a proximidade do encontro e sua dvida se dissipar completamente
quando ele acontecer.
     -Deduzo que esse encontro a que voc se refere  com a mulher que percebi durante aquela experincia l na pedra. Voc me disse que ela est em outro mundo...
     Manu abaixou a cabea, fechou os olhos e tomou uma atitude de quem se esfora para ouvir alguma coisa. Foi exatamente isso que me pareceu quando ele levantou
a cabea abrindo os olhos, sorrindo e respondendo resoluto:
     -Ela ficou l por muito tempo e depois decidiu, por causa de sua demora, vir para encontr-lo.
     Tive que respirar fundo para no dizer a Manu que o que eu achava mesmo  que ele tinha uma imaginao muito frtil. O problema  que isso eu pensei, mas o
que senti...
     -Ela vive aqui, ento?
     Manu sorriu novamente. Parecia estar contente com o que me acontecia. Eu  que no achava nada divertido. Insisti na pergunta:
     -Ela est aqui?
     -Sim.
     -Onde? Como saberei quem ? Como irei encontr-la?
     -Seu sentimento agora est aberto para encontr-la. Voc saber quem  porque sentir quem . E ser ela quem vir encontr-lo porque veio para isso. Ela vir
at voc.
     -Quer dizer que no me resta fazer nada?
     -Esforce-se por no bloquear seu sentimento. Deixe que tudo flua com naturalidade. Voc s ter a ganhar se parar de construir barreiras com a sua razo.
     -Que efeito teve o fato de voc me instruir e me conduzir ao Portal? Se voc diz agora que ela veio para encontrar-me, tudo o que voc fez no seria dispensvel?
     -Primeiro: estava determinado que ela o esperaria. Mesmo estando aqui, ela manteria isso. Ficaria o esperando. Isso  que foi mudado. Por ela e por voc com
a fora do sentimento. Segundo: era preciso, para isso acontecer, que o sentimento que estava bloqueado em seu consciente se libertasse. Estava bloqueado porque
voc no poderia sentir, encarnado, o que seu ser sente por ela. Seria viver num inferno permanente se, encarnado, separado por milhes de anos-luz de distncia,
voc tivesse conscincia da existncia dela. Como ela veio, isso deveria ser corrigido.
     -Coisas assim, ento, podem ser feitas para qualquer um?
     -Podem. S que  preciso que se tenha uma viso, uma percepo mais profunda ao analisarmos cada resultado. A finalidade maior  despertar o sentimento em sua
grandeza primordial, fazendo com que haja uma compreenso plena sobre ele e sobre sua importncia vital para cada ser. Por Amor, por esse sentimento que tudo comanda,
esse encontro sempre  facilitado.
     O importante  que cada um perceba como o Amor se manifesta em seu ser. Ele se manifestar, de um modo ou de outro, para cada um que o procurar. Muitas vezes
a frmula para o encontrarmos  olhar na direo oposta a que estamos acostumados ou viciados em olhar. Experimente isso tambm com voc.
     Pare de usar a razo para medir o sentimento. Pare de tentar alcanar as estrelas com a racionalidade terrestre. Dentro de voc h uma estrela mais fcil de
alcanar. D uma chance ao seu sentimento. Deixe que ele o guie, pelo menos por um trecho do caminho, por pequeno que seja. Se voc no gostar do que encontrar,
poder voltar sem prejuzo.
     A grande energia depositada na pequena pedra abriu esse caminho para voc, mas ela no ir for'a-lo a andar. Isso cabe a voc decidir se quer ou no.
     Medite sobre tudo o que ouviu. Sobre tudo o que sentiu. Sobretudo sobre o que sentiu. Analise o que aprendeu. No somente o que aprendeu de mim, mas o que vem
aprendendo desde que conheceu os Sete. Faa um balano de tudo.
     Voc ver que, apesar do tamanho grandioso de tudo o que j recebeu, ainda lhe falta algo muito maior. Se assim no fosse, por que essa sensao agora de que
voc se aproxima de algo to importante?
     Depois de encontr-la voc ento perceber que tudo que julgar ter  nada, porque  nada sem t-la.
     Saber que tudo o que recebeu antes foi apenas para torn-lo digno de encontr-la e ir se esforar para melhorar sempre porque, perante o que passar a sentir,
perceber que tudo o que  ainda  pouco.
     No ter tristeza ou infelicidade por isso. Ter alegria e felicidade suficientes para alm de continuar seu caminho no se conformar enquanto no conseguir
repartir tudo o que recebeu.
     Depois, talvez, at se apavore ao perceber que  medida que reparte o que tem ir sempre tendo mais e mais.
     Enfim, se sentir orgulhoso por ter conseguido ser humano.
     Ser humano porque nunca dir a nenhum outro: isso  bom para voc. Dir antes: desejo que voc encontre aquilo que julga ser bom para voc.
     Ser humano porque aprender a ver no outro um ser nico e o compreender e o respeitar por isso.
     Ser humano porque no ir tentar guiar o outro por caminhos que o transformem num anjo e no o ameaar transform-lo num demnio se discordar de voc.
     Ser humano porque, no sabendo tudo, ensinar ento o equilbrio e trabalhar para que cada um possa, por si, encontrar a prpria felicidade.
     -Se eu devo repassar a outros o que estou aprendendo aqui, preciso de mais esclarecimentos. Mesmo j confiando em voc, mesmo com esse sentimento que me d
a certeza, preciso de mais explicaes... -foi o que comecei falando logo que reencontrei Manu. -Preciso saber mais detalhadamente sobre essas energias e vibraes
e como manipul-las. Qualquer resultado positivo num encontro entre duas pessoas, trabalhando anteriormente pelos mtodos que voc me ensinou, no poderiam ser obra
do acaso?
     -Tentarei esclarec-lo com um exemplo -respondeu Manu. -Voc certamente conhece aquele mtodo que os psiclogos usam com manchas e tinta que devem ser interpretadas
pelos seus pacientes. Voc mistura tintas de vrias cores aleatoriamente e da resultam figuras, certo? Pois bem, atualmente j se fazem pesquisas com sofisticados
computadores capazes de antecipar o resultado que ir se obter com essas manchas e que at agora era tido como mero acaso. Chama-se a isso mtodo dos atratores estranhos.
E o que  o computador? No  uma mquina que auxilia a mente humana? Ento? Uma mente ou algumas mentes desenvolvidas no poderiam fazer o mesmo ou at mais?
     Pois  isso que se faz quando uma pessoa ou um grupo delas prepara talisms, por exemplo.  isso que foi feito aqui, com todo o Conhecimento, pelos antigos,
para carregar com energias e vibraes os objetos ou os lugares, que passaram assim a ter a energia na freqncia distinta para cada Portal.
     Uma vez preparadas, as pessoas com suas mentes harmonizadas podem sintonizar outras mentes que vibram nessas freqncias e juntas desencadear os processos necessrios
para cada objetivo em questao. Podem criar, por exemplo, situaes que provoquem o encontro entre dois seres e sem qualquer participao do caso.
     Eu lhe dei esse exemplo para que voc comece a modificar seu conceito de acaso, porque, na verdade, ele no existe.
     Sobre as energias, tenho a lhe dizer que existem algumas, de baixa freqncia e ainda no percebidas pela fsica, mais baixas do que a energia da fora de gravitao,
que  a mais baixa conhecida. Essas energias, ainda no detectadas por nossa cincia, da mesma maneira que a fora de gravitao, tambm modificam o espao.
     Para usar essas energias dou-lhe o exemplo da pilha nuclear que libera energia atmica graas a uma definida disposio geomtrica de materiais puros. Poderamos
dizer que a manipulao das energias sutis  feita da mesma maneira. Pode-se construir uma pilha psquica colocando-se seres humanos puros numa determinada disposio
geomtrica e assim manipular a energia liberada que ir agir alterando, modificando o espao e provocar com isso, por exemplo, o alinhamento de duas mentes. Est
compreendendo?
     -Sim -respondi. -Voc falou em seres humanos puros colocados em exerccios de mentalizao objetivos e dispostos numa posio geomtrica... Quem seriam essas
pessoas, que mentalizao teriam de fazer e qual a geometria a ser obedecida?
     -As pessoas que participariam das mentalizaes seriam as mesmas que o procurariam para iniciar a jornada ao Primeiro Portal. Entrevistando-as, voc saber
quais esto com seus coraes puros nas intenes. Esse trabalho de mentalizaes voc far aqui, junto ao objeto depositrio da energia. Far as mentalizaes dirigidas
s pessoas que vierem at aqui e tambm em benefcio das que no puderem vir.
     Como aqui j existe todo um campo energtico sintonizado nas freqncias corretas, essas prticas so muito facilitadas se feitas aqui e  justamente por isso
que lhe disse que vindo at aqui as coisas tornam-se mais fceis. Quanto s mentalizaes e  geometria a serem obedecidas, vou ensinar-lhe, porm, voc s deve
revel-las s pessoas que o procurarem pessoalmente. Isso evitar que experincias mal conduzidas venham a interferir nesses campos energticos especficos.
     Manu explicou-me detalhadamente como conduzir o trabalho, reiterando o pedido para que s o revelasse aos que se dispusessem a vir at a ilha. Demonstrando
sempre preocupao em compensar os que no tivessem meios para vir, ensinou-me como energizar objetos e coloc-los na freqncia da virtude do Primeiro Portal, como
talisms que eu poderia distribuir para essas pessoas depois de instru-las tambm. Por fim, disse-me que, como eu iria precisar para realizar todos esses trabalhos
de um basto igual ao que ele usava, ele iria fazer-me uma demonstrao de como as mentalizaes efetivamente funcionando como catalizadores de efeitos manipulados
pela mente.
     -Vamos at o local do Segundo Portal. A fora que ele representa, necessria para toda a caminhada, pode ser traduzida pelas ferramentas que o ser precisa nessa
empreitada. O basto que uso  uma dessas ferramentas. Vou fazer com que voc receba um, usando para isso a manipulao da energia e da vibrao correspondentes.
     Enquanto caminhvamos em direo ao ponto energtico correspondente ao Segundo Portal, Manu continuou falando sobre as mentalizaes e sobre a geometria que
deveria ser obedecida na disposio dos participantes dos trabalhos. Explicou-me tambm sobre uma srie de prticas mgicas nas quais eu poderia usar o basto e
disse-me que a meu critrio eu poderia entregar outros bastes iguais para pessoas que se dispusessem a fazer toda a experincia de percorrer o Caminho dos Magos,
ali na ilha.
     -Passar por todas as fases preparatrias  iniciao aqui requer muita perseverana. Isso j ser um bom indicador quando tiver que dicidir a quem mais poder
entregar o basto.
     Passamos pelo monumento dos Sete Moais e nos dirigimos para o Norte. Manu parou  beira de um grande buraco no cho. Era a entrada de uma das inmeras grutas
que esto por toda a ilha. Havia sinais de que o lugar era usado para acampamentos. Nos primeiros trinta metros, a gruta era bem larga e o teto alto. A gua da chuva,
filtrada pelo solo, escorria pelas paredes de pedra formando poas no cho. Chegamos a uma parte bem mais larga. Um buraco no teto deixava a luz do Sol iluminar
o local. Uma abertura numa das paredes daquele lugar, que parecia um anfiteatro subterrneo, mostrava que a gruta no terminava ali. Manu apanhou dois galhos secos
em um canto e fez com eles duas tochas usando capim seco. Afastou algumas pedras descobrindo um vidro onde provavelmente guardava leo queimado. Deduzi isso pela
fumaa e pelo cheiro expelidos quando acendeu as tochas depois de embeb-las com aquele lquido escuro.
     Seguimos adiante, agora por um tnel que mal dava para se ficar de p. Era um canal subterrneo por onde a lava anteriormente escorria at o mar. Inmeros desses
canais cortam toda a ilha, formando um labirinto subterrneo.
     Dizem que at hoje as famlias descendentes dos antigos nativos tm lugares assim onde escondem velhos objetos, relquias das famlias e onde tambm alguns
enterram seus mortos.
     Nenhum pasquense comenta sobre esses assuntos por mais que se insista. Costumes milenares ainda so mantidos, apesar de os historiadores afirmarem que todos
foram esquecidos ou abandonados.
     Lembro-me de que durante minha segunda visita  ilha um ancio desapareceu de casa. Organizaram expedies de busca, mas s o encontraram depois de seis dias.
Foi achado morto, despido, deitado sobre uma laje de pedra e em volta do seu corpo rochas soltas cuidadosamente arrumadas em crculo denunciavam que ele mesmo fizera
um ritual para sua morte.
     Acompanhei Manu por aquele tnel estreito por bastante tempo e a sensao de estar me enfiando cada vez mais para dentro da terra no me agradava nada. S respirei
mais aliviado quando vi uma claridade adiante mostrando que estvamos no fim daquele tnel. S que o alvio durou pouco. A luz, de fato, era do dia l fora, mas
no havia como seguir adiante. Teramos que voltar por onde viemos, j que aquele canal subterrneo terminava abruptamente bem no meio de um penhasco, abrindo-se
como que uma janela para o mar. Parei bem na borda ao lado de Manu. Uns cem metros nos separavam do oceano l embaixo. Calculei que para cima deveria haver outro
tanto. No dava para saber com certeza por causa das rochas salientes que no permitiam ver dali o comeo do penhasco l em cima.
     Se algum desejar desaparecer definitivamente, basta dar um passo para a frente, pensei, imaginando o que seria uma queda dali daquela altura at as pedras
l embaixo, fustigadas por ondas gigantescas.
     Manu deitou-se no cho, de bruos, colocando quase todo o trax para fora da abertura. Tateou uma salincia a uns oitenta centmetros para baixo, deslocou alguns
tufos de capim que cresciam nas frestas da rocha vulcnica e puxou dali uma linha grossa de nilon. Levantou-se e comeou a pux-la para cima enrolando-a no cabo
da tocha que carregava. A ponta da linha sumia l embaixo dentro do mar. Algo bastante pesado devia estar preso na ponta da linha, pensei, notando o esforo que
fazia. Ele mantinha os braos esticados para a frente para evitar que o objeto que iava batesse nas paredes do despenhadeiro. De vez quem quando, parava para descanar
e foi enrolando at que fez surgir o seu basto esculpido em madeira preso  ponta da linha de pesca, amarrado a uma pedra de tamanho razovel o bastante, creio,
para mant-lo no fundo d`gua.
     Manu suspirou aliviado, livre do esforo, soltando os braos para baixo.
     Era a segunda vez que o via retirar aquele objeto de lugares estranhos. Um armrio seria mais apropriado, pensei. Primeiro o retirou de sob a terra, agora do
fundo do mar... Terra... gua... Meu crebro funcionou depressa dando a resposta e eu repeti em voz alta:
     -Terra, gua...
     -Fogo e ar -completou ele, continuando. -Os bastes servem para, principalmente, fazer os crculos de proteo nos rituais de magia. Devem estar limpos e a
limpeza e conseqente energizao se fazem mantendo-os em contato com os quatro elementos naturais. Quando voc receber o seu deve fazer isso. Para energiz-lo com
o fogo e com o ar basta deix-lo exposto ao Sol. Bem, agora vamos voltar. Eu no gosto de ficar sob a terra e no escuro. Encontre-me l na sada da gruta e leve
isto para mim, por favor.
     Dizendo-me isso, entregou-me o basto e lanou seu corpo para fora da janela de pedra, comeando a escalar o paredo. Fiquei ali parado vendo-o sumir logo por
entre as grandes reentrncias das rochas.
     ... E agora? Vou ter que voltar por esse tnel sozinho. No gosta... Droga... Acontece que eu tambm no gosto...
     Resoluto, arranquei os tnis e pendurei-os pelos cordes ao cinto. Arranquei a manga da camisa, rasguei-a em duas tiras e fiz uma ala para colocar o basto
a tiracolo e assim ficar com as mos livres. Hesitei quando olhei para baixo, mas segui em frente tratando de olhar s para cima. O paredo de lava endurecida, totalmente
disforme, facilitava tremendamente a escalada, tornando-a muito mais fcil do que se podia imaginar pela aparncia. Subi com cuidado os primeiros dez metros e para
a minha surpresa, logo acima, o paredo, que l de baixo onde estvamos parecia vertical, se inclinava bastante para trs. Logo comecei a ver a terra do solo da
ilha misturada entre as rochas e mais um pouco adiante ficou clara a trilha por onde Manu deveria ter subido.
     Encontrei-o sentado na beira do penhasco. Tirei o basto soltando as tiras de pano e entreguei a ele.
     -Obrigado -disse ele, como que examinando aquela pea. -Sabe o que significa a serpente? -perguntou, aludindo  forma da criatura esculpida na madeira. Fiz
que no com a cabea.
     -Sabedoria.
     -... Sei... -respondi secamente, j deduzindo que Manu estava me experimentando com aquela histria de mandar eu voltar. Mesmo assim, perguntei: -Voc disse
que ia me esperar l na entrada da gruta. Por que ficou aqui?
     -Calculei que voc no gostasse tambm de andar por baixo da terra -disse, sorrindo e colocando a mo sobre o meu ombro, continuou: -Muitas vezes, amigo, o
que nos parece  primeira vista intransponvel nos surpreende por sequer ser parecido com o que pensvamos. Em tudo o que quisermos realizar teremos que correr um
risco proporcional ao tamanho daquilo que queremos alcanar. Vamos?
     Seguimos pela orla ainda por meia hora at chegarmos a um lugar chamado Maitaki te Moa.
     -Aqui est a energia do Segundo Portal, a Fora. Vou pedir aos guardies para que voc receba o basto antes de partir.
     Manu disse isso sentando-se e, colocando o seu basto no colo, ficou em silncio por uns cinco minutos.
     Voltamos dando toda a volta pelo litoral Norte e depois descemos pelo lado Leste, regressando ao povoado. Quando j estvamos perto de casa, perguntei-lhe sobre
o basto.
     -Quer dizer que algum vai me dar o basto?
     -Espero que sim. Se no for desta vez, quem sabe na outra... Agora, j no depende mais de mim.
     Meus amigos pasquenses costumam dizer que o tempo no passa na Ilha da Pscoa. Alguns, principalmente os jovens, pressionados pelos apelos do mundo, sentem-se
at como prisioneiros da ilha. Se considerarmos as circunstncias do modelo de vida no sculo XX, temos que admitir que eles l tm as suas razes.
     Para mim, entretanto, o tempo corria depressa demais.
     Certamente porque eu tenho como preench-lo muito bem. Mesmo que no estivesse acontecendo tudo aquilo, tenho certeza de que poderia ficar ali pelo resto da
vida sem me entediar.
     Sem dvida, os Deuses deram-me presentes valiosos. As informaes que eu podia usar em benefcio da minha mudana interior, a possibilidade de reparti-las e
ainda o dom da pintura que veio depois que os encontrei.
     Mas eu sabia que no podia ficar naquele lugar fabuloso por muito tempo mais. Uns quinze dias mais e Eduardo e Luclia estariam regressando. Isso, entretanto,
no me impediria de ficar. Eduardo j tinha me falado que quando eu quisesse ele poderia comear gestes para me conseguir o visto de residente. Minha experincia
em promoes poderia ser aplicada ao turismo e isso era de interesse at do governo.
     Mas eu no queria ficar por muito tempo mais. Sentia que precisava voltar e encontrar aquela pessoa de quem Manu me aproximara.
     Sem conhec-la, sem saber se realmente existia, apenas sentindo-a perto, ansiava por encontr-la. Se era essa a inteno final de Manu, ele tinha obtido xito.
O corao comeava a superar a razo que, comigo, at aquele tempo, estava acostumada a vencer sempre.
     Sentia que me modificava. Muitas vezes superei a vontade de sair atrs de Manu para perguntar-lhe alguma coisa. Ao invs disso, ficava em casa lendo as anotaes,
meditando, refletindo sobre tudo que supunha ainda no ter compreendido.
     Percebia que havia muito o que aprender, mas sabia que isso viria devagar, por partes, Portal por Portal.
     Deviam faltar uns dois ou trs dias para a volta dos amigos Eduardo e Luclia, de Santiago.
     Eu acordava sempre bem cedo. Muitas vezes antes de o Sol nascer.
     Naquele dia, devia ser uma sete horas da manh, eu estava sentado na varanda com meus papis espalhados sobre a mesa quando Manu apareceu acenando da entrada
do jardim. Levantei-me e tambm acenei para ele, um pouco surpreso. Tinha chegado a pensar que talvez ele nem aparecesse mais. Poderia faz-lo tranqilamente. Eu
j lhe era grato por tudo o que fizera despertar em mim.
     Na verdade, eu o subestimava ou ainda subestimava o que ele tinha providenciado ou facilitado. A avaliao correta disso acho que nunca se completar. A cada
dia descubro novas dimenses do tesouro que colocou em minhas mos e a cada dia reparo que erro nessa tentativa de avaliao.  sempre mais, mais e mais.  difcil
falar sobre isso. Lembro-me de que Manu me falou certa vez que existem coisas reservadas aos humanos que no podem ser descritas, s sentidas.
     Ele me fez um sinal para que o acompanhasse.
     Parecia no querer entrar. Acenei de volta fazendo sinal para que esperasse um instante. Juntei os papis e fui para dentro. Apanhei a mochila e joguei dentro
dela algumas frutas e biscoitos. Enchi o cantil com gua do filtro. Quando passei pela Kombi que eu tinha deixado estacionada no jardim, apontei para ela para ver
se ele queria sair de carro. Ele fez sinal que no, que queria ir a p.
     -Logo voc estar partindo, amigo -disse-me como que preparando uma despedida.
     -... Mas se a Deusa quiser, logo estarei de volta -respondi, enfatizando a palavra deusa como que para demonstrar-lhe que eu comeava a aprender algumas de
suas lies.
     -Voc, por certo, voltar, mas no ser to cedo assim.
     -Na verdade, Manu, estou meio dividido. Ansioso por ir ao encontro daquela que voc diz estar me esperando e, ao mesmo tempo, com medo.
     - natural.
     -No sei. s vezes, penso que eu j deveria ter mais confiana. J recebi tanta coisa boa desde que encontrei os irmos do espao. Mesmo antes de vir para c
e conhecer voc, pelo que eu j tinha recebido, acho que no deveria ter ainda tanta hesitao.
     -Agora tudo isso vai mudar. Eu lhe disse que no se consegue muita coisa antes de se chegar ao Primeiro Portal. Tudo o que voc aprendeu antes, apesar de ser
grandioso, ainda estava como que desordenado em sua mente. Agora, tudo se acalmar, voc ver. Com o que ir receber, com a mudana que ir se processar quando se
completar, voc atingir a Paz Interior.
     E voc, recebendo aqui o tesouro que muitos julgam s ser possvel conseguir alm daqui, ir anular a nica coisa que o tem freado todo esse tempo, que  a
interveno da razo em detrimento do sentimento.
     -Voc tem alguma instruo especfica com relao ao que devo fazer para repartir o que me ensinou?
     -No. E voc deixe que os acontecimentos fluam normalmente. Primeiro voc ir encontr-la; depois, com o passar do tempo, poder avaliar corretamente a dimenso
do que recebeu e decidir, ento, como encaminhar a continuidade de seu trabalho que  tambm o de retransmitir o Conhecimento. Deixe que a tranqilidade e a Paz
tomem conta de voc.
     Eu podia sentir que Manu estava se despedindo.
     -E voc? Estar aqui? No h nada que eu possa fazer para...
     -H, sim. Seja feliz. Faa um bom uso do que lhe transmiti. E no se preocupe comigo. Lembre-se de que lhe falei sobre ser necessrio conhecer o Amor para poder
lev-lo at outros...
     Manu sorriu e seus olhos brilharam, deixando-me perceber claramente que ele j tinha o que eu ainda estava por receber.
     Senti-me feliz por ele.
     Ele no precisou falar para que eu notasse que estvamos refazendo a caminhada at o Portal.
     Respirei fundo e procurei me harmonizar com a vida que vinha da natureza ali ainda no to magoada.
     Caminhei em silncio ao lado de Manu. Sentia-me livre at de pensamentos que pudessem desviar minha mentalizao. Refiz a anlise. Perguntei a mim mesmo por
que estava ali e descobri, l no fundo, que eu queria de fato alcanar a Paz e ter como repart-la. Senti que podia me integrar com a energia que emanava de cada
elemento. Da terra em que pisava, do ar que passava por ns, do fogo do Sol que fabricava a luz quente que banhava tudo em volta, da gua respingando das grandes
ondas que se espatifavam nas pedras que protegiam a trilha  beira do mar.
     Percebi a importncia que Manu dera em se fazer tambm aquele caminho fsico e procurei gravar toda a forte sensao transmitida pela fora viva da natureza,
porque eu sabia que teria que orientar depois os que no pudessem chegar at ali.
     Ajudado por toda aquela vibrao de vida, constru na mente o caminho imaginrio que tambm poderia me levar ao Portal.
     Ele se formou mentalmente como um grande prtico de cristal rosa, guardado pelos dois seres que, indescritveis, personalizavam o sentimento gerador de toda
a Criao.
     A fora daquela fantstica vibrao que senti abrigou-me a parar. Sentei-me e mentalizei um pedido aos guardies do Primeiro Portal. Pedi que permitissem que
eu pudesse encaminhar outros a se harmonizarem com eles e lhes agradeci tambm por tudo de bom que me proporcionavam.
     Depois, levantei-me e continuei andando at a grande pedra oval. Chegando a ela, repeti a mesma mentalizao.
     Ajoelhei-me na frente dela e abracei-a concentrando-me para imaginar que estava junto ao Portal guardado por Paulo e Rowena. Aos poucos, fui distanciando-me
dali. O barulho das ondas batendo nas pedras do litoral s minhas costas foi ficando cada vez mais longe. Procurei recordar todas as instrues que Manu me dera
para fazer essas mentalizaes, buscando primeiro a harmonizao com os quatro elementos. Com a terra sobre a qual eu estava ajoelhado, sentindo o calor do fogo
do Sol e o ar se manifestando atravs da brisa que trazia o frescor das guas do oceano. Mentalizei estar procurando formar a imagem do caminho que me levaria ao
Portal, mas, sem querer, comecei a fazer o exerccio de respirao que dias antes acabou por provocar a minha sada consciente do corpo fsico.
     Mesmo no sendo o que pretendia, no interrompi a respirao compassada. O rudo do mar sumiu por completo. Foi substitudo por um silvo leve que se foi modificando
aos poucos, porque se interrompia em intervalos cada vez menores at parecer com a batida de um pequeno sino, ou, melhor ainda, com o som que se obtm tocando de
leve as bordas de dois clices de cristal. Esse som foi multiplicando-se at parecer que mil sinos tocavam em plena harmonia uma melodia que nunca ouvi.
     J no sentia o Sol forte nas minhas costas. Todo o ambiente parecia modificar-se. S a brisa permanecia e era ela que provocava o leve rudo de um tecido batido
pelo vento e que eu sentia bem  minha frente.
     Abri os olhos, levantei-me e dei dois passos para trs. Era possvel ver a pedra oval e meu corpo abraado a ela, mas como se fosse uma imagem transparente
sobreposta a outro cenrio composto de formas e luzes cor-de-rosa. Duas gigantescas pedras de cristal ladeavam uma mulher. O rudo que eu ouvira do vento num tecido
era de seu vestido longo, de um rosa quase branco. A poucos passos atrs, um homem permanecia imvel, enquanto a mulher deu um passo para a frente e, levantando
um pouco o brao direito, parecia estar falando, porm dirigindo-se  imagem transparente de meu corpo abraado  pedra. Eu no conseguia ouvir o que dizia e nem
ver com detalhes o seu rosto e nem o do homem atrs dela. Flashes de luz cor-de-rosa pareciam espocar de todos os lados e a msica dos sinos envolvia tudo. Em dado
instante, a mulher afastou-se dando alguns passos para trs e eu me senti impelido a aproximar-me do meu corpo, sentindo novamente a presso na cabea igual a que
sentira da outra vez que tinha passado pela mesma experincia.
     O barulho das ondas substituiu a msica e eu tive uma surpresa quando voltei ao meu estado normal: a sensao imediata de saber o que aquela mulher tinha me
falado e que antes eu no pudera ouvir.
     No sei exatamente o que ou como aconteceu e nem Manu soube me explicar quando lhe relatei o acontecido. Ele achou que deveria ter sido apenas mais uma demonstrao,
nesse caso de Rowena, a Guardi, da variedade de formas de comunicao que esses seres possuem. O fato  que Ela conseguiu fazer com que a minha mente fsica gravasse
o que tinha para dizer.
     O que quer que tenha acontecido, s pude traduzir o que ouvira atravs de um poema, que escrevi ali mesmo e mostrei a Manu:


Vou e volto no espao,
leve levada vou
pela nave navegante celeste,
mensageira mandada que sou
pelo rei regente uviversal.
Agente atenta escuto
pedidos do povo perdido,
portadora da paz procurada,
procuro ajudar trazendo
o amor do meu mundo novo
E magnfica  a misericrdia
de meu mestre que
na mesma misso
manda seus filhos fiis.
Guerreiros valentes valorosos,
poderosos amigos tenho comigo
trazendo do pai, poder invencvel,
a potente e indestrutvel
fora da pedra,
ddiva de Deus
para a nova terra.

     Rowena referiu-se assim  fora do Amor comparando-a com a pedra, um elemento que simboliza para ns algo muito forte.
     Manu leu atentamente o poema e depois me perguntou:
     -O que voc sente ao escrever coisas como essa ou quando pinta os quadros?
     - gratificante, mas como a escrita desses poemas e a pintura surgiram s depois do meu encontro com os Sete,  tambm um pouco assustador.
     -Se voc passar a aceitar que esse  o seu melhor canal de comunicao, tudo fluir melhor e voc poder utilizar essas manifestaes para ajudar as pessoas
que desejarem harmonizar-se tambm com essas mentes csmicas. A pintura, principalmente, pode tornar-se um forte complemento nas prticas de meditao visando a
esse contato.
     -Como assim?
     -Voc sabe que nossas mentes precisam de estmulos para alcanar nveis mais elevados da conscincia. Esses estmulos que auxiliam as mentes no treinadas para
isso so conseguidos atravs de exerccios de meditao, prticas fsicas, relaxamentos, melhoria das vibraes do local utilizado etc. Nisso entram os odores atravs
dos incensos, os talisms, prticas de magia, sons especficos como os mantras, por exemplo, e tudo o que possa auxiliar na induo, na sugesto mental.
     Seus quadros retratam paisagens dos mundos habitados pelos seres que se quer contatar. Voc capta no s a imagem, mas tambm coloca neles a vibrao fsica
de cada um desses mundos. Por isso  que os retrata em uma s cor. Porque capta a energia bsica de cada um deles. Essa imagem, usada nas prticas de meditao,
nos exerccios para a sada consciente do corpo fsico, nas concentraes visando  harmonizao, constituem-se numa aprecivel chave para o estabelecimento da sintonia
na freqncia de cada um desses mundos e conseqentemente dos seres que os habitam.
     Eu e Manu retornamos o caminho de volta.
     Achei que devia perguntar-lhe muitas outras coisas, mas, ao mesmo tempo, conclui que no era preciso. J percebera com o que ele havia me ensinado, que cada
passo do caminho mental e do caminho fsico era, na verdade, um tpico de uma lio que eu poderia reestudar, reexaminar quantas vezes eu julgasse necessrio.
     Manu parou quando chegamos a uma encruzilhada.
     -Voc segue por aqui e eu por ali -disse apontando as duas direes.
     Pensei em abra-lo, em agradecer.
     Fiquei ali parado ainda por muito tempo. Vendo-o afastar-se pela estrada, disfarado em sua simplicidade, fiquei imaginando que ele poderia estar indo ao encontro
de outros para continuar seu trabalho de gente das estrelas, o sonho de reintegrar a Terra na Comunidade Csmica.
     Tive que voltar logo para a realidade quando vi alguns turistas passarem por ele em direo oposta e sequer o notarem. Sorri ao pensar que aquelas pessoas poderiam
ser como muitas que vo at lugares como aquele em busca de contatos grandiosos, mas que, equivocados, os procuram nos cus:


Quem, olhando o pssaro em vo majestoso,
repara em sua sombra no cho?
E no ser a sombra do pssaro parte dele?
Olhai o pssaro.
Atentai para seus movimentos.
Observai depois sua sombra no solo.
No se comporta ela tal como ele?
Mas quem, olhando o pssaro,
repara na sua sombra no cho?
Desatentos, os homens, olhando para o alto
 procura dos pssaros,
pisam em suas sombras.
Mas chegar o dia
em que os pssaros descero
trazendo amor
para aqueles que pisaram em suas sombras.
Procurai entender
porque isso s vos ser cobrado
por vossas conscincias
e ser amargo.

     S o vi por mais uma vez.
     Vinte dias depois, eu estava no aeroporto j pronto para partir quando tive mais uma demonstrao de que eu efetivamente poderia confiar naquele que durante
aquele tempo foi meu instrutor.
     Estremeci quando Luclia se aproximou de mim trazendo a escultura de madeira exatamente igual ao basto que Manu usava para suas magias. Ela a entregou a mim
e, colocando um dos tradicionais colares de conchas no meu pescoo, que foi juntar-se a muitos que eu j tinha recebido de todos os amigos que foram se despedir,
disse-me:
     Esperamos que logo esteja conosco novamente.
     Logo depois eu cruzava os cem metros de cimento cheios de poas d`gua que separavam o avio do prdio do aeroporto.
     Tinha chovido durante a noite e, naquela hora, pela manh bem cedo, ainda chuviscava e ventava bastante.
     Eu pensava no presente de Luclia quando um sopro mais forte do vento fez meu bon sair rolando pela pista.
     Desvencilhei-me das sacolas e dos colares de conchas e corri atrs dele. Abaixei-me para apanh-lo. Quando me levantei e o recoloquei, vi Manu no outro lado
da cerca do aeroporto.
     Ele ecenou e no resisti em fazer-lhe uma ltima pergunta. Dei uma corrida at a cerca. Ele sorria. Colocou a sua mo sobre a tela e eu coloquei a minha mo
espalmada sobre a dele.
     -Quando?
     -Antes que chegue a nova Lua cheia de setembro.
     Meses depois, eu a encontrei. Casamo-nos pouco depois.
     Viajamos juntos para uma praia e certo dia comentei, olhando o mar:
     - um mundo bonito...
     -O Mundo Verde  mais bonito -ela respondeu, ao mesmo tempo surpresa por no compreender por que dissera aquilo que lhe parecia sem sentido.
     Ela comeava a lembrar-se...
     Era setembro, quase um ano depois, mas ainda no tinha chegado a Lua cheia.

?




A ORIGEM

O Nada, que no teve princpio, foi,
desde o Sempre, um Homem e uma Mulher.
Dois...
Dois pontos de Luz que viajavam pelo Vazio,
vagando perdidos no Vcuo,
buscando um pelo outro.
O Todo era o Nada ento.
E foi assim at que os dois se viram,
um no horizonte do outro.
Foi o comeo...
Ele e Ela voando. Um em direo ao outro.
Cada um buscando a Luz do outro.
Cada um sem saber o que era aquela Luz nica
nas trevas infinitas e que precisava ser alcanada.
Essa foi a Primeira Grande Jornada do Ser.
E cada um sentia vir da Luz do outro que buscava
fora para prosseguir.
Foi o comeo do sentir...
Quando finalmente os dois se encontraram,
Aconteceu a Grande exploso de Luz e os dois,
juntos, sendo dois em um, geraram o Universo.

Foi assim que tudo comeou,
surgindo de uma grande exploso de amor
de um homem e de uma mulher.

                                                     ...essa  a Resposta.

     Mataram quase tudo em Rapa Nui... Quase tudo.
   Que bom que esconderam, bem escondido, a chave que abre o corao.




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Glossrio:


1.  Nome da Ilha da Pscoa na lngua de seus habitantes originais. Vale tambm comentar que a lngua nativa dos pasquenses tem o mesmo nome que eles davam  sua
terra: Rapa Nui.

2.  Mahina Omotohi quer dizer Lua cheia na lngua Rapa Nui.

3.  Rano na lngua Rapa Nui quer dizer vulco.

4.  Esttua tpica de pedra representando a forma humana encontrada na Ilha da Pscoa e que se pode apreciar na capa desta obra.

5.  Ahu quer dizer altar na lngua Rapa Nui.

6.  Maunga quer dizer morro na lngua Rapa Nui.

7.  Manu toke toke  um pssaro. Manu  pssaro e toke toke significa ladro.

8.  Maunga Terevaka  o morro mais alto da ilha, com quinhentos e sessenta metros de altitude.

9.  Tahai  um grande stio arqueolgico completamente restaurado. Ali podem-se apreciar no s os moais, mas, tambm, vrios tipos de antigas habitaes e as grandes
rampas que os nativos construam para facilitar o acesso ao mar. Por estar muito perto do aeroporto, Tahai  o lugar escolhido pelas empresas de turismo para levar
os passageiros que apenas passam, em trnsito, pela Ilha da Pscoa. Como a parada ali  longa por causa do reabastecimento do avio, aproveitam esse tempo para levar
os passageiros at esse lugar e assim dar-lhes a oportunidade de conhecer uma pequena parte da ilha.





Autor: Paulo Kronemberger
Novo Milnio Editora




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